sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A Criação de Deus – parte III

(continuação de A Criação de Deus – parte II)

Chegaram finalmente aquele local onde todos os dias subiam para planear o dia de caça. Dali podiam ver, lá em baixo, uma vasta área onde vários animais costumavam alimentar-se. E dali podiam delinear os planos para matar e levar para a caverna um daqueles animais.

E hoje, depois do fracasso da caçada do dia anterior, era especialmente importante conseguirem voltar para a caverna com alguma coisa que os pudesse compensar da fome mal disfarçada com os poucos alimentos reunidos pelas mulheres e pelos jovens.

Acercou-se do limiar do rochedo e ali se deixou ficar a olhar aquele espaço, enquanto os outros começavam a discutir as melhores formas de prosseguir o dia… também ele costumava participar nestas discussões, mas neste dia, depois dos acontecimentos do dia anterior e dos pensamentos, dúvidas e receios da noite, preferiu ficar ali, de olhar vago, respirando o ar ainda fresco do início do dia.

Vieram-lhe à memória as imagens daquele jovem deitado no chão da caverna… a recordação daquela estranha e dolorosa sensação que o tinha atormentado durante todo o dia e que, sabia-o, em muito tinha contribuído para o fracasso da caçada… a recordação da alegria que sentira quando, ao voltar à caverna, tinha encontrado o jovem já bastante melhor… a noite de guarda… as pequenas luzes no céu escuro… a grande luz que não tinha aparecido nessa noite… a grande luz que trouxera o dia e que agora o aquecia…

Estes pensamentos foram interrompidos, não pela acesa discussão atrás de si, mas por uma quase imperceptível movimentação na vegetação lá em baixo. Agachou-se no limite do rochedo para melhor inspeccionar a zona, não que esperasse encontrar ali algum alvo de caça, ou que, ainda influenciado pela sua inesperada tarefa de guarda na noite anterior, temesse uma qualquer ameaça… não havia uma razão em particular, apenas a mais simples das curiosidades.

A princípio não conseguiu detectar qualquer indício, mas alguns instantes depois um novo movimento denunciou-lhe o corpo de uma fera, tão fundida com a vegetação que só o movimento a tornou visível. Sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, não porque temesse um ataque daquela fera, pois sabia bem que nada se atreveria a atacar um grupo tão grande, mas por se tratar de uma fera igual aquela que ele havia enfrentado, há não muito tempo, para defender aquele mesmo jovem, e que quase lhe arrancara um dos braços. Sem se dar conta agarrou o braço, no sítio onde agora havia uma enorme cicatriz, como se tivesse ficado mais intensa aquela mesma dor que sempre o acompanhava e à qual já quase se habituara. Depois, esquecendo de novo a dor do braço, olhou para a pele que lhe cobria o corpo, a mesma pele que antes cobrira o corpo da fera que o atacara e que, desde então, ele fazia questão de usar sempre.

Um movimento mais brusco lá em baixo chamou-lhe de novo a atenção… a fera parecia estar a atacar algum animal… olhou melhor e viu, então, uma cria toda encolhida, vergada pelo medo dos dentes bem afiados e pelo rugido da mãe. Não era a primeira vez que assistia a situações destas, em que um animal utilizava a sua força e o seu poder contra a sua própria cria. No seu próprio grupo era frequente os mais velhos fazerem o mesmo em relação aos jovens, e ele próprio já o tinha feito. Lembrava-se também, ainda que vagamente, de várias situações em que ele mesmo, ainda jovem, tinha também sido o alvo deste tipo de comportamento.

Sabia que o objectivo daquela fera não era o de ferir a sua própria cria, muito pelo contrário, sabia que este tipo de situação só poderia ser justificado pelo facto de a cria ter feito algo de errado, e esta era a forma de lhe mostrar isso. Não, o objectivo não era atacar, o objectivo era outro… não sabia bem como classificar este outro objectivo, pois não tinha, no seu ainda rudimentar vocabulário, qualquer palavra que permitisse traduzir correctamente o que estava a ver. Por momentos questionou-se sobre aquele estranho facto de a mesma força poder ser usada tanto para atacar como para aquele outro objectivo, o qual, apesar de não saber como classificar, sabia ser o oposto do primeiro.

Pensou como seria bom se ele próprio continuasse a ter alguém que tomasse conta dele, que o protegesse dos perigos e dos seus medos… alguém ou alguma coisa… ficou ali bloqueado com aquele desejo… não sabia porquê, mas não conseguia pensar noutra coisa… e foi então que teve aquela ideia!... e se houvesse mesmo alguém?... ou alguma coisa?...

***

E foi assim que, pela primeira vez, o homem criou Deus, um Deus à imagem das suas necessidades, das suas dúvidas e dos seus medos.

Talvez não tenha sido desta forma… talvez não tenha sido de uma forma muito diferente…

quinta-feira, 31 de julho de 2008

A Criação de Deus – parte II

(continuação de A Criação de Deus – parte I)

Não sabia porque razão não conseguia adormecer e entrar naquele estranho mundo em que mergulhava todas as noites.

Não era o frio que lhe tirava o sono, pois a época do frio já tinha passado e o ligeiro arrefecimento da noite era facilmente derrotado pelas peles que usava para cobrir o corpo. Também não era o calor porque a época do calor ainda estava para chegar e as noites quentes da caverna nunca o eram o suficiente para impedir o descanso. Seria portanto outra a desconhecida razão para a falta do desejado descanso.

Por mais que tentasse fechar os olhos e esvaziar o pensamento, este acabava sempre por arrastá-lo para um outro mundo não menos estranho, um mundo de lembranças, de dúvidas e de medos.

Levantou-se e dirigiu-se à entrada da caverna, onde o companheiro de serviço permanecia atento a todos os movimentos e a todos os ruídos que enchiam a noite, pronto para dar o alarme ao menor sinal de que algum perigo se aproximava. O outro, na surpresa de ouvir de dentro da caverna os ruídos denunciadores de movimentações suspeitas que temia ouvir vindos do lado de fora, voltou-se repentinamente de pau levantado, pronto para enfrentar aquela inesperada ameaça. Ao aperceber-se da silhueta no escuro da caverna baixou o pau e, com um breve urro, voltou a sua atenção de novo para a noite.

Foi colocar-se ao lado do outro, escutando a noite e olhando o escuro do céu e os pequenos pontos de luz que o enchiam. O outro, entendendo neste comportamento uma inesperada rendição do seu turno de guarda, virou-se para dentro da caverna e, com um último urro, entrou e dirigiu-se para o local que normalmente ocupava quando dormia.

Ali ficou atento à noite, empenhado na sua nova missão de guarda… olhou de novo o céu recheado daquelas pequenas luzes, algumas mais nítidas, outras quase imperceptíveis, outras ainda que pareciam apagar-se para logo de seguida se voltarem a acender.

Não tinha aparecido hoje aquela outra luz, maior e mais intensa, que uma vezes aparecia outras vezes não, umas vezes aparecia inteira, outras vezes aparecia diminuída e chegava mesmo a ser apenas uma linha quase imperceptível, como se fosse uma fera escondida à espreita e à espera de saltar em cima de qualquer coisa que passasse por perto e de que pudesse alimentar-se… Não estava nesta noite essa outra luz, ou talvez estivesse escondida, tão escondida que nem mesmo se conseguia ver aquela quase imperceptível linha… estremeceu ao pensar que podia ser ele o observado, que poderia ser ele a preza prestes a ser caçada…

O que seria essa estranha luz que hoje não tinha aparecido?... o que seriam todas aquelas outras pequenas luzes?... e o que seria aquela outra luz muito mais forte que levava a escuridão e lhes fazia chegar o dia?...

Um ruído suspeito nas proximidades da caverna fê-lo abandonar estes pensamentos… escutou um pouco mais… podia ser apenas um pequeno animal insignificante, poderia ser um animal que, depois de caçado, lhes traria alimento, mas a noite escura também podia esconder alguma coisa bastante mais perigosa, por isso não hesitou e começou aos berros, e a bater com paus nas rochas à volta da entrada. Num instante vários outros se vieram juntar ao alarido e várias pedras foram lançadas em todas as direcções. Depois, quase repentinamente, calaram-se de novo para escutarem o súbito silêncio da noite e ali ficaram, também em silêncio, à escuta do mais pequeno e insignificante sinal até que, aos poucos, o ruído da noite foi retomando a normalidade. Na falta de novos sinais ameaçadores, todos foram voltando para os seus lugares de descanso deixando na entrada da caverna o mesmo imprevisto guarda.

Não tardou a voltar aos mesmos pensamentos e às mesmas dúvidas…

(continua)

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Nostalgia

Gostaria de já ter colocado aqui a parte II de "A Criação de Deus", mas tem-me faltado o tempo para fazer os últimos ajustes ao texto já escrito (e para pôr alguma leitura em dia). No entretanto deixo aqui uma pequena provocação à amiga RC do blog A geometria das palavras:

Nostalgia, no tal dia, do tal dia...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A Criação de Deus - parte I

Não sabia porque se sentia daquela forma, ali sentado ao lado daquele jovem deitado…

Não sabia porque o corpo do jovem tremia tanto, como se tivesse frio, apesar de a pele dele estar tão quente e o suor lhe escorrer pelo corpo…

Não sabia porque estava ele ali deitado, tão imóvel, ele que normalmente era um dos mais activos quando, juntamente com os outros jovens e mulheres, vasculhava o terreno à volta da caverna à procura de alimento.

Não sabia que invisível fera se teria apoderado daquele corpo… vieram-lhe à memória as imagens daquele dia, ainda não muito longínquo, em que se tinha atravessado no caminho entre uma fera e aquele mesmo jovem… Não sabia o que o tinha levado a defende-lo e a enfrentar a fera com uma força que julgava não ter… Não sabia porque era mais dolorosa esta dor que agora sentia que aquela que tinha sentido no braço ferido pelos dentes da fera…

Não sabia porquê, mas sabia que voltaria a colocar-se entre aquele jovem e uma qualquer fera que o ameaçasse, mesmo que fosse a maior de todas… não sabia porquê, mas sabia que se pudesse tomaria para si esta fera invisível, libertando o jovem das suas garras.

Não sabia o que o segurava naquela caverna, insensível ao chamamento dos outros, impacientes por iniciar a caçada do dia.

Não sabia o que o tinha feito parar à entrada da caverna para se virar para trás e olhar demoradamente aquele jovem, depois de relutantemente ter cedido ao chamamento dos outros e aos encontrões que um dos mais impacientes viera dar-lhe para que se levantasse… não sabia o porquê daquele medo que dele se apoderou… não sabia porque se lhe enchiam os olhos à medida que lentamente se virava e descia ao encontro dos outros…

Não sabia o porquê daquela dor que o acompanhou durante todo o dia pelas sucessivas vãs tentativas para caçar algum animal que pudesse servir de alimento para si e para o resto do grupo.

Não sabia porque se tinha sentido tão feliz quando, ao regressarem da caçada de mãos vazias, e à distância que o seu olhar conseguia alcançar, tinha vislumbrado o jovem sentado junto à entrada da caverna. Não sabia como o desânimo do insucesso da caçada se tinha transformado, tão repentinamente, naquela energia que o tinha feito correr em direcção à caverna.

Não sabia porque razão, ainda ofegante da subida apressada pelo amontoado rochoso que separava a planície da entrada da caverna, tinha sentido aquele impulso para tocar e agarrar aquele jovem, para se certificar que já não tremia, que já não estava quente, que já não suava, que aquela fera invisível tinha desistido do seu corpo ou tinha, de alguma forma, sido vencida.

Não sabia que este ao lado de quem agora se sentava era seu filho, porque não tinha a noção de paternidade, apenas o inexplicável instinto que o impelia a defender a sua herança genética.

Não sabia a idade daquele jovem porque, embora tivesse a noção da sucessão das estações, do frio para a chegada das flores, das flores para o calor, do calor para a as arvores despidas de folhas e destas de novo para o frio, não tinha a noção de tempo, e também não saberia como extrapolar à contagem destas passagens o rudimentar uso que fazia dos dedos da mão, aos quais recorria para transmitir aos seus colegas de caça o número de animais presentes num dado local.

(continua)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Lavagem...

Sentia-a suja, imunda mesmo!... Tinha passado por muitas batalhas, muitas delas perdidas, tinha caído no chão e tinha sido arrastada, espezinhada…

Sentiu-se completamente esmagado com o peso de toda aquela sujidade, como se o universo inteiro se tivesse abatido sobre ele e não o deixasse respirar… não, não podia esperar mais!... a lavagem tinha de ser feita rapidamente!

Depois do jantar esperou que os restantes membros da família se fossem retirando, aos poucos, para o merecido descanso e deixou-se ficar, aguentando o cansaço e o desejo de procurar igual conforto.

Esperou um pouco mais para dar tempo a que todos adormecessem. Aquela lavagem era uma tarefa solitária, só dele, um acto do mais elementar egoísmo que não podia ser partilhado nem interrompido.

Dirigiu-se à estante da sala e retirou um CD, depois dirigiu-se à aparelhagem, colocou o CD no leitor, ligou os auscultadores, puxou uma almofada de uma cadeira próxima e colocou-a no chão junto do móvel da aparelhagem.

Apagou a luz e, no escuro, deitou-se no chão com a cabeça na almofada e colocou os auscultadores. Durante algum tempo deixou-se ficar ali sentindo o silêncio, a escuridão e o conforto do chão duro nas costas. Depois, lentamente, levantou o braço direito e, tacteando pelo leitor, carregou no botão de “Play”. Esperou pelos primeiros acordes para ajustar o volume e depois baixou o braço colocando-o ao longo do corpo, na perfeita simetria com o braço esquerdo.

Fechou os olhos. Todos os seus sentidos estavam concentrados naquela música que agora se começava a desenrolar.

Menos de um minuto passado desde o início da primeira faixa, a entrada do baixo, logo seguida pela entrada do coro, primeiro com as vozes masculinas e pouco depois com as femininas, provocou-lhe um arrepio que se propagou a todas as partes do corpo. Sentiu as raízes de cada cabelo do seu corpo como se fossem alfinetes espetados na pele.

Pouco depois, a entrada da soprano inunda-lhe os olhos. Sente-se flutuar, como se tivesse sido transportado daquela sala e daquele chão para uma outra dimensão. A intensidade de sensações assume proporções cada vez maiores até que o coro, adivinhando a necessidade de uma pausa urgente naquele turbilhão de emoções, se esvai num “et lux perpetua luceat eis”.

Mas a pausa é curta, ainda mal acabara de recuperar o fôlego e já o “Kyrie eleison” lhe arrancava de novo a respiração…

“Dies irae”

“Tuba Mirum”

“Rex tremendae”

Do lado direito, um primeiro fio, impossível de conter por mais tempo no limitado volume da cavidade ocular, abriu caminho pelo canto exterior do olho, seguindo depois, muito lentamente, em direcção à orelha, passando junto à almofada do auscultador em direcção ao pescoço e perdendo-se no emaranhado de cabelo entalado contra a almofada.

Talvez por uma menor produção da glândula lacrimal esquerda, talvez por uma ligeira inclinação da cabeça mais para o lado direito, ou talvez por um maior volume da cavidade ocular esquerda, resultante de alguma imperceptível falta de simetria na anatomia facial, que, como bem sabemos, os dois lados, esquerdo e direito, nunca são exactamente iguais, do lado esquerdo só alguns breves segundos depois escorreu um fio semelhante ao que havia escorrido do direito.

Sentiu cada milímetro daqueles dois percursos, um após o outro, daquelas duas primeiras lágrimas, lentas e hesitantes, à medida que iam vencendo a resistência imposta pela pele ainda seca. Não, não fez qualquer tentativa para enxugar os olhos ou para limpar os rastos molhados de ambos os lados da cara. Não, aquelas lágrimas tinham de percorrer o seu caminho sem qualquer perturbação…

“Recordare”

“Confutatis maledictis”

Os fios lentamente traçados por aquelas duas primeiras lágrimas eram agora fluxos contínuos, percorridos sem dificuldade e espalhando-se pelo cabelo e pela almofada.

“Lacrimosa”

“Domine Jesu”

“Hostias”

Pelos fios abertos passam agora os últimos vestígios de uma cheia que, aos poucos, se esgota.

“Sanctus”

“Benedictus”

Acabaram-se as lágrimas…

“Agnus Dei”

“Communion”.

No súbito silêncio, abriu lentamente os olhos, agora quase completamente secos… Retomou a consciência do mundo à sua volta, do escuro da sala, do chão duro debaixo das costas, do cabelo molhado junto ao pescoço…

Ficou ali, de olhos abertos olhando o escuro. Interrogou-se, como fazia sempre, sobre aquele curioso facto de uma obra concebida para acompanhar na morte ter esta capacidade de, a ele, lhe trazer tanta vida… e como seria se o autor tivesse vivido o tempo suficiente para ser ele a terminar aquela obra deixada incompleta?… que sensações e emoções teria sentido naqueles últimos quarenta e cinco minutos ao ouvir essa obra completa?...

Levantou-se, desligou a aparelhagem e arrumou a almofada e os auscultadores e dirigiu-se para a cama.

A alma estava agora limpa… enrugada, tal como uma qualquer peça de roupa acabada de recolher do estendal, mas limpa… Imaculadamente limpa.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Sonhos Cruzados - parte V

(continuação de Sonhos Cruzados – partes I, II, III e IV)

Acordou pouco depois da hora habitual a que acordava durante a semana.

Procurou recordar o sonho da noite para ver se a carta que tinha enviado à morena tinha chegado intacta ao seu destinatário, e para ver se esta lhe tinha enviado alguma resposta…

Apercebeu-se da inutilidade dos seus esforços do dia anterior, mas foi com bastante entusiasmo que recordou o exacto número de unhas que a morena de cabelo comprido e olhos castanhos pintara de vermelho bem vivo.

Sentiu-se bastante satisfeita com o facto de terem encontrado uma forma de comunicar, mas haveria tempo para voltar a pensar no assunto durante a tarde, por isso voltou a fechar os olhos na tentativa de aproveitar a manhã de sábado para se recompor do cansaço acumulado ao longo da semana.

Acordou pouco depois da hora habitual a que acordava durante a semana.

Procurou recordar o sonho da noite para ver se tinha havido alguma evolução… mas desta vez o sonho fora estranhamente curto… apenas um acordar para voltar a adormecer numa manhã de sábado… optou por não pensar muito no assunto e resolveu, seguindo o exemplo da loira, fechar os olhos na tentativa de aproveitar a manhã de sábado para se recompor do cansaço acumulado ao longo da semana.

Acordou com o toque da campainha da porta. Os sucessivos toques das campainhas dos apartamentos vizinhos permitiram-lhe deduzir tratar-se de alguém a distribuir publicidade…

Acordou com o toque da campainha da porta. Os sucessivos toques das campainhas dos apartamentos vizinhos permitiram-lhe deduzir tratar-se de alguém a distribuir publicidade…

Não tinha de se incomodar, algum dos seus vizinhos ou vizinhas abriria a porta, mas sentia-se estranha, por isso levantou-se e dirigiu-se à casa de banho de olhos meio fechados…

Não tinha de se incomodar, algum dos seus vizinhos ou vizinhas abriria a porta, mas sentia-se estranha, por isso levantou-se e dirigiu-se à casa de banho de olhos meio fechados…

Sentiu-se perdida no quarto e foi com alguma dificuldade que acabou por dar com a porta da casa de banho. Sentia-se cada vez mais estranha…

Sentiu-se perdida no quarto e foi com alguma dificuldade que acabou por dar com a porta da casa de banho. Sentia-se cada vez mais estranha…

Levou as mãos à cara e depois ao cabelo… de repente sentiu o seu mundo desabar…

Levou as mãos à cara e depois ao cabelo… de repente sentiu o seu mundo desabar…

Numa súbita urgência de negar com os olhos a afirmação transmitida pelo tacto, correu a mão pela parede pelo lado de fora da porta da casa de banho até encontrar o interruptor…

Numa súbita urgência de negar com os olhos a afirmação transmitida pelo tacto, correu a mão pela parede pelo lado de fora da porta da casa de banho até encontrar o interruptor…

Com a mão a proteger os olhos da súbita luminosidade olhou-se ao espelho e deixou escapar um grito de horror…

Com a mão a proteger os olhos da súbita luminosidade olhou-se ao espelho e deixou escapar um grito de horror…

Do lado de lá olhavam-na uns olhos castanhos plantados numa cara morena de cabelo escuro comprido, emaranhado pela almofada…

Do lado de lá olhavam-na uns olhos azuis plantados numa cara branca de cabelo loiro e curto, levemente desalinhado pela almofada…

Puxou o cabelo para a frente dos olhos para ter a certeza de que não estava a ser enganada pelo espelho… mas não, lá estava o cabelo comprido e escuro…

Agarrou nuns quantos cabelos e arrancou-os para os poder olhar directamente e ter a certeza de que não estava a ser enganada pelo espelho… mas não, eram bem loiros aqueles cabelos entre os seus dedos, como era viva a dor de onde acabara de os arrancar…

Incrédula, recuou até à porta da casa de banho e deteve-se um pouco a olhar à sua volta.

Incrédula, recuou até à porta da casa de banho e deteve-se um pouco a olhar à sua volta.

Virou-se para o quarto, vagamente iluminado pela luz atrás de si e, de novo, olhou à volta.

Virou-se para o quarto, vagamente iluminado pela luz atrás de si e, de novo, olhou à volta.

Saiu apressadamente do quarto e percorreu a casa toda olhando vagamente em todas as direcções…

Saiu apressadamente do quarto e percorreu a casa toda olhando vagamente em todas as direcções…

Não havia dúvida, estava na casa da morena!…

Não havia dúvida, estava na casa da loira!…

Encostada numa parede deixou-se deslizar até ficar sentada no chão.

Encostada numa parede deixou-se deslizar até ficar sentada no chão.

Tentou recordar-se do seu nome… mas por mais que tentasse só conseguia lembrar-se do nome da morena…

Tentou recordar-se do seu nome… mas por mais que tentasse só conseguia lembrar-se do nome da loira…

Não havia dúvida, estava no corpo da morena… no mundo da morena... e com as memórias da morena!...

Não havia dúvida, estava no corpo da loira… no mundo da loira... e com as memórias da loira!...

***

Não voltou a saber da loira de cabelo curto e olhos azuis, nem mesmo em sonhos.

Não voltou a saber da morena de cabelo comprido e olhos castanhos, nem mesmo em sonhos.

FIM

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Sonhos Cruzados – parte IV

(continuação de Sonhos Cruzados – partes I, II e III)

Por alguns instantes, ali sentada na cama, apoderou-se dela uma enorme frustração pela inutilidade daquele trabalho, como se tivesse sido ela própria a tê-lo e não a loira de cabelo curto e olhos azuis. Tantas horas de cuidadosa dedicação e memorização… e tudo para nada!…

Depois, pensando melhor, concluiu que aquela tinha sido apenas a primeira etapa de um caminho de descoberta, do qual não podia desistir logo ao primeiro fracasso! Não, de facto desistir não fazia o género dela.

Enquanto tomava o banho matinal foi tentando organizar as ideias e tentando descobrir alguma porta entreaberta, ou a ponta de um véu que pudesse levantar para, finalmente, revelar os segredos escondidos…

Lembrou-se da possibilidade de recorrer a algum evento desportivo, social, ou político de nível mundial. Mesmo que não conseguissem estabelecer um outro tipo de contacto, talvez fosse possível encontrarem-se em algum local que ambas conseguissem estabelecer como referência…

Foi então que se deu conta de que se recordava com bastante detalhe de todas as caras que se haviam cruzado na frente dos olhos azuis da loira de cabelo curto. E também as caras que se haviam cruzado na frente dos seus olhos castanhos apareciam claras nas imagens recordadas dos sonhos da loira.

Foi tentando identificar outros detalhes dos quais se recordava com clareza para depois procurar alguma forma de os usar para passar informação… lembrava-se das roupas que a outra vestia, da cor do batom, do verniz das unhas, daquilo que comia… “o verniz das unhas!” exclamou em voz alta… Sim, essa poderia ser uma forma!...

Saiu rapidamente do banho e, depois de se secar cuidadosamente, pintou algumas unhas das mãos, o mesmo número de unhas do primeiro dígito do seu número de telefone, começando pelo indicativo internacional. Se o esquema funcionasse, e se a loira seguisse o exemplo, bastariam alguns dias para ambas saberem em que países viviam. Depois, com mais alguns dias, teriam o número de telefone completo e poderiam, finalmente, entrar em contacto.

Sentiu-se ridícula assim com algumas unhas pintadas e outras por pintar… e certamente iria ser alvo da curiosidade dos colegas no laboratório, mas tudo isso lhe parecia pouco importante face ao objectivo em vista… De qualquer modo, tal como vinha acontecendo nas últimas semanas, o volume de trabalho que a esperava não deixaria muitas oportunidades para alimentar conversas à volta do assunto.

Chegou a casa já bastante tarde. Tinha conseguido terminar todo o trabalho que se havia proposto fazer, mas agora estava muito cansada… Felizmente era sexta-feira!... no dia seguinte poderia descansar um pouco mais… e poderia voltar a pensar na loira de cabelo curto e olhos azuis, e nas possíveis formas de com ela comunicar. Mas, para já, era urgente descansar… e era também urgente que a loira acordasse…

Não teve dificuldade em adormecer.

(continua, mas o fim está próximo)

sábado, 3 de maio de 2008

Sonhos Cruzados - parte III

(continuação de Sonhos Cruzados – parte I e parte II)

Ali continuou sentada, na beira da cama, tentando encontrar uma explicação… Era como se tanto ela como a morena do sonho fossem, de facto, pessoas reais… duas pessoas ligadas uma à outra, de tal forma que enquanto uma vivia o seu dia, a outra sonhava, na sua noite, aquele dia vivido…

Como seria possível uma coisa assim?... que magias?... que deuses?... que demónios?... que forças ocultas estariam por detrás de uma tal ligação?... e porquê ela?... porquê elas?! E quem seria a morena?... onde viveria?... em que país e em que cidade?...

Fechou os olhos e esforçou-se por se lembrar de algum detalhe que lhe pudesse dar uma pista. Assim foi percorrendo os sonhos das últimas duas noites, tentando encontrar alguma informação que lhe permitisse ter uma ideia acerca do local onde vivia a morena de cabelo comprido e olhos castanhos. Mas por mais que tentasse, e apesar de a maior parte das imagens daqueles sonhos lhe aparecerem tão claras como se tivesse sido ela a vê-las com os seus próprios olhos, não conseguia recordar qualquer detalhe que a pudesse ajudar naquela tarefa. Além disso, continuava a não conseguir recordar o nome da morena nem língua que falava.

Estava num beco sem saída… o local onde a outra vivia poderia ser um entre muitos milhares espalhados pelo globo… e mesmo que a fisionomia dela e das outras pessoas com quem se cruzara lhe permitissem excluir algumas zonas do globo, ficavam ainda muitas outras possibilidades.

Saiu da cama enquanto continuava a pensar numa forma de sair daquele impasse. Enquanto tomava o banho matinal, que desta vez não servia de despertador, pois o seu cérebro começara a trabalhar a todo o vapor assim que acordara, tomou uma decisão. Ao longo do dia trataria de plantar nas suas memórias várias referências que, depois de sonhadas pela morena, poderiam dar a esta alguma referência. Já que ela não conseguira recordar-se de qualquer informação útil, talvez conseguisse passar à outra informações sobre ela própria.

Sentada no autocarro, a caminho do escritório, foi pensado como seria aquele hipotético futuro encontro entre ela e a morena… de que forma influenciaria as suas vidas?... de que falariam?... conseguiriam comunicar-se numa língua que ambas entendessem?... e como sonhariam depois esse encontro?...

Ocorreu-lhe que a morena poderia viver precisamente do outro lado do planeta… a noite de uma coincidindo com o dia da outra… e a vigília de uma com o sono e o sonho da outra…

Já no escritório ligou o computador e começou a navegar pela internet procurando fotografias e descrições dos locais e dos monumentos mais simbólicos do país. Juntou tudo num documento, no qual acrescentou uma página onde, em letras bem grandes, escreveu o nome do país e da cidade em que vivia. Ao longo do dia, foi visitando várias vezes este documento, percorrendo cuidadosamente cada página, para garantir que este ficaria devidamente implantado na sua memória.

Quando o paquete interno do escritório lhe trouxe a correspondência do dia, sorriu ao pensar que o que estava a tentar fazer era, nada mais, nada menos, que enviar uma carta à morena de cabelo comprido e olhos castanhos. Não estava a usar o serviço dos correios, nem colocara qualquer endereço de destino, mas, ainda assim, era de uma carta que se tratava, e sabia que seria recebida pelo destinatário pretendido.

Foi com muita expectativa que, já em casa, esperou pelo sono que, assim esperava, haveria de levar à morena toda aquela preciosa informação. No entanto, a expectativa e o sono não costumam ser bons companheiros, e era já bastante tarde quando finalmente conseguiu adormecer.

O despertador arrancou-a do sono à hora habitual de qualquer dia de trabalho. Preparava-se para sair da cama quando lhe vieram à memória as primeiras imagens daquele sonho… tinha sonhado de novo com a loira de cabelo curto e olhos azuis…

Ali continuou sentada, na beira da cama, relembrando cada detalhe do sonho… o beliscão no braço, as conclusões a que a outra tinha chegado, a tentativa de saber alguma coisa sobre ela própria e, finalmente, a tentativa de lhe enviar uma carta com informações sobre o local onde vivia…

Tentou então lembrar-se daquelas páginas daquela carta que a loira lhe tentara enviar, mas, por mais que se esforçasse, não conseguiu recordar nem o que estava escrito nem as imagens das fotografias tão criteriosamente seleccionadas…

(continua)

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Sonhos Cruzados - parte II

(continuação de Sonhos Cruzados – parte I)

Enquanto entrava no duche para se colocar debaixo da chuva de água quente que todas as manhãs a resgatava, definitivamente, da sonolência, interrogou-se sobre aquele estranho sonho, tentando recordar mais detalhes e mais imagens. E foi de olhos fechados, com a água do chuveiro a cair-lhe na cabeça e a escorre-lhe pelo corpo, que se deu conta do sonho daquela outra mulher com quem tinha sonhado… apercebeu-se que a outra, a loira de cabelo curto e olhos azuis, tinha sonhado com ela, a morena de cabelo comprido e olhos castanhos…

Ali ficou estática, recordando aquele sonho que se prolongava pelo dia de trabalho de uma mulher loira de cabelo curto e olhos azuis… um dia de trabalho intenso, aqui e ali salpicado pelas recordações de um sonho onde era uma morena de cabelo comprido e olhos castanhos…

Estava bastante confusa… ela, morena de cabelos compridos e olhos castanhos, tinha tido um sonho no qual era uma outra mulher, loira de cabelo curto e olhos azuis, que, por sua vez, tinha tido um sonho no qual era uma outra… A loira do sonho tinha sonhado com o dia que ela própria, a morena, tinha vivido ontem!…

As imagens daquele sonho apareciam-lhe tão nítidas como se as tivesse vivido de verdade… Abriu os olhos e debruçou-se um pouco para se conseguir olhar no espelho, já meio embaciado pelo vapor do chuveiro, só para ter a certeza de que este lhe devolvia a imagem de uma cara com cabelo escuro e comprido…

Ocorreu-lhe então uma ideia perturbadora… a ideia de que ela própria poderia não ser mais do que um sonho sonhado pela loira de cabelo curto e olhos azuis… Quase instintivamente beliscou-se violentamente no braço, na expectativa de acordar em sobressalto e de correr para a casa de banho para encontrar a sua imagem, de cabelo loiro curto e olhos azuis, reflectida no espelho.

Mas não… ali continuava, com a água quente a escorrer-lhe pelo corpo e uma dor bem viva no braço esquerdo… Podia então concluir que ela era real e que a outra, a loira de cabelo curto e olhos azuis, era apenas uma criação da sua imaginação… um sonho estranho, mas apenas isso, um sonho!...

Apressou-se a terminar o banho e a arranjar-se para sair de casa para mais um dia de trabalho. Tinha um programa bastante apertado de experiências para realizar e não podia dar-se ao luxo de perder tempo por causa de um simples sonho.

Ao longo do dia só a dor persistente no seu braço esquerdo, e a mancha que gradualmente se fora transformando de vermelho para verde escuro, lhe trouxeram recordações ocasionais daquela manhã e das imagens plantadas durante a noite. Passava já bastante da normal hora de jantar quando, finalmente, conseguiu concluir o programa de experiências e de observações que tinha programado para aquele dia.

Finalmente em casa, e depois de comer qualquer coisa rápida, sentou-se no sofá e ligou a televisão no canal de notícias para se pôr a par com o que tinha acontecido pelo mundo. No entanto, o cansaço apoderou-se rapidamente dela, e foi já meio cambaleante que se dirigiu para o quarto e se enfiou dentro da cama. Não teve dificuldades em adormecer.

O despertador arrancou-a do sono à hora habitual de qualquer dia de trabalho. Preparava-se para sair da cama quando lhe vieram à memória as primeiras imagens daquele sonho… tinha sonhado de novo com a morena de cabelo comprido e olhos castanhos…

Apercebeu-se então que também a morena tinha sonhado com ela… lembrou-se das dúvidas da morena e do beliscão no braço… lembrou-se da conclusão a que chegara pelo facto de não ter acordado… seria possível?... seria ela, a loira, um mero sonho da morena?... Quase instintivamente sentou-se na cama e beliscou-se violentamente no braço, na expectativa de acordar em sobressalto e de correr para a casa de banho para encontrar a sua imagem, de cabelo escuro comprido e olhos castanhos, reflectida no espelho.

Mas não… ali continuava, sentada naquela mesma cama com uma dor bem viva no braço esquerdo…

(continua)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Sonhos cruzados - parte I

Saiu penosamente da cama e foi cambaleando até à casa de banho. Deixou-se ficar sentada na sanita mais do que o tempo necessário para se aliviar das necessidades fisiológicas matinais, o tempo necessário para que o seu corpo e o seu cérebro despertassem. Finalmente levantou-se e, já mais desperta, meteu a mão pela porta para chegar ao interruptor e acender a luz. De olhos entreabertos para evitar o encandeamento da súbita luminosidade, olhou-se ao espelho, cumprindo o ritual de todas as manhãs.

A repentina surpresa fê-la abrir completamente os olhos para ver melhor aquela imagem que o espelho lhe devolvia, como se não fossem aqueles olhos azuis os mesmos que todas as manhãs a olhavam do lado de lá, como se fosse diferente aquele cabelo loiro de corte curto, ainda desalinhado pela almofada.

Virou-se para o chuveiro, achando-se estúpida por se ter surpreendido com o reflexo da sua imagem que tão bem conhecia, e preparava-se para abrir a água quente quando lhe vieram à memória imagens plantadas durante a noite… imagens de um espelho não muito diferente daquele ao qual tinha acabado de virar as costas, numa casa de banho não muito diferente desta sua… mas era bastante diferente a imagem que agora recordava, reflectida naquele outro espelho… a imagem de uma cara bonita, de olhos castanhos e cabelo escuro e comprido.

Enquanto entrava no duche para se colocar debaixo da chuva de água quente que todas as manhãs a resgatava, definitivamente, da sonolência, interrogou-se sobre aquele estranho sonho, tentando recordar mais detalhes e mais imagens. Estas foram-lhe aparecendo cada vez mais nítidas, quase reais, como se fossem fragmentos de um dia realmente vivido num outro corpo…

Finalmente desperta, e finalmente consciente das responsabilidades que a esperavam no escritório, apressou-se a sair do banho e a preparar-se para sair de casa. Engoliu rapidamente um copo de leite frio e saiu de casa ainda a mastigar uma bolacha.

Já no autocarro, vieram-lhe ao pensamento imagens da morena do sonho, também ela apressada para sair de casa e apanhar o autocarro. Para onde iria ela, qual seria o seu destino matinal?... Concentrou-se um pouco mais naquelas imagens, às quais se sucederam novas imagens, nítidas como se as tivesse vivido de verdade, de uma viagem de autocarro, depois um breve percurso a pé e, finalmente, a entrada num edifício moderno…

Saiu do autocarro e, enquanto percorria a pé o percurso final até ao escritório, continuou também a percorrer aquelas recordações… vestia agora uma bata branca e, enquanto metia as mãos por baixo do cabelo comprido para o libertar da bata, deixando-o solto, viu-se novamente reflectida no espelho, morena de cabelo comprido e olhos castanhos, bonita… depois, satisfeita com a imagem que o espelho lhe mostrava, afastou-se e entrou no laboratório onde se sentou no seu lugar e depositou os olhos castanhos no microscópio.

A recordação destas memórias foi interrompida com a chegada ao escritório. O patrão também já tinha chegado. O dia de trabalho que agora começava ia ser muito intenso, por isso entregou-se rapidamente às suas responsabilidades.

Na breve pausa para o almoço recordou a também breve pausa do almoço sonhado. Também ela, a morena, parecia atarefada, não pelo volume de trabalho que um qualquer patrão lhe entregava, mas pelo entusiasmo do trabalho em si. Não conseguia recordar-se da exacta natureza do trabalho dela, mas pressentia uma excitação que ela própria nunca sentira naquele trabalho de secretária de administração.

Muito do sucesso da viagem de negócios do patrão dependia do trabalho que ainda havia para fazer, e o sucesso dela própria dependia, também, deste mesmo sucesso. A tarde correu, por isso, ainda mais intensa que a manhã. Felizmente o dia seguinte, com o patrão em viagem, seria mais calmo.

A noite ia já avançada quando finalmente deixou tudo pronto e desceu para apanhar um táxi que a levasse de volta a casa. Enquanto o táxi a transportava através das luzes da cidade, o seu pensamento transportou-a de novo numa viagem pelas memórias adquiridas durante a noite. Deu-se conta que tinha sonhado um dia completo daquela outra mulher, morena de olhos castanhos, bonita… um dia desde o acordar até ao adormecer, passando por toda a azáfama de um dia de trabalho num laboratório.

Surpreendeu-se de novo com a nitidez com que se recordava de tudo, embora, por outro lado, não conseguisse recordar-se do nome dela, da morena… nem do nome dos seus colegas… esforçou-se por tentar reconstruir alguns dos diálogos sonhados, mas apesar de recordar com clareza o que tinha sido dito, não conseguia reconstruir as palavras, nem a língua em que tinham sido pronunciadas…

Mas estava demasiado cansada, por isso desligou-se do sonho e, já em casa, comeu qualquer coisa rápida e foi para a cama. Não teve dificuldades em adormecer.

Saiu penosamente da cama e foi cambaleando até à casa de banho. Deixou-se ficar sentada na sanita mais do que o tempo necessário para se aliviar das necessidades fisiológicas matinais, o tempo necessário para que o seu corpo e o seu cérebro despertassem. Finalmente levantou-se e, já mais desperta, meteu a mão pela porta para chegar ao interruptor e acender a luz. De olhos entreabertos para evitar o encandeamento da súbita luminosidade, olhou-se ao espelho, cumprindo o ritual de todas as manhãs.

A repentina surpresa fê-la abrir completamente os olhos para ver melhor aquela imagem que o espelho lhe devolvia, como se não fossem aqueles olhos castanhos os mesmos que todas as manhãs a olhavam do lado de lá, como se fosse diferente aquele cabelo escuro e comprido, ainda desalinhado pela almofada.

Virou-se para o chuveiro, achando-se estúpida por se ter surpreendido com o reflexo da sua imagem que tão bem conhecia, e preparava-se para abrir a água quente quando lhe vieram à memória imagens plantadas durante a noite… imagens de um espelho não muito diferente daquele ao qual tinha acabado de virar as costas, numa casa de banho não muito diferente desta sua… mas era bastante diferente a imagem que agora recordava, reflectida naquele outro espelho… a imagem de uma cara bonita, de olhos azuis e cabelo curto e loiro.

(continua)

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Encontro

Nunca se tinha sentido tão triste e tão angustiada. Precisava de chegar a casa para se esconder, para chorar, para gritar!… entrou na casa de banho e lavou a cara com água fria, numa tentativa desesperada de segurar as lágrimas que lhe rebentavam nos olhos, e o grito que lhe subia pela garganta. Olhou a sua cara molhada no espelho e viu-a totalmente transfigurada naquela máscara de sofrimento. Secou apressadamente a cara, saiu da casa de banho, contornou os corredores, meteu pela escadaria e iniciou a descida.

O elevador seria mais rápido do que descer a pé os quatro andares que a separavam da rua, mas não queria encontrar-se com mais ninguém, muito menos no espaço apertado do elevador. As escadas, pelo contrário, estariam desertas, e mesmo que se cruzasse com alguém menos comodista, poderia continuar a descer apressadamente, reduzindo os eventuais encontros a simples cruzamentos de ombro com ombro... não de olhos com olhos, que esses seguiam colados aos degraus que lhe fugiam debaixo dos pés a grande velocidade, com a mão firme no corrimão para evitar alguma fatal perda de equilíbrio.

O frio do inverno tardio bateu-lhe na cara, ajudando-a a reprimir as lágrimas. Avançou pela rua, meio curvada, não para se esconder do frio, mas para se esconder do mundo e das outras pessoas que passavam. Apressou o passo pelo caminho mais curto, seguindo curvada e encostada às paredes dos prédios, numa tentativa desesperada de se esconder dos olhares da multidão que, apesar de frios e indiferentes, a trespassavam como flechas em chama.

Subitamente, ao virar para outra rua, chocou de frente com alguém que vinha no sentido oposto, também curvada e também encostada às paredes dos prédios, numa igual tentativa de se esconder de frios e indiferentes olhares.

Frente a frente olharam-se mutuamente. Nunca se tinham visto, mas reconheceram na cara uma da outra a mesma tristeza, a mesma angústia, a mesma máscara de sofrimento.

Instintivamente envolveram-se num abraço forte e contínuo, não num abraço de amantes, mas num abraço de irmãs. As lágrimas, impossíveis de reprimir por mais tempo, irromperam em enxurradas incontroláveis e os gritos soltaram-se das gargantas. Num tempo que não conseguiram contabilizar, o universo ficou reduzido a elas próprias, alheias à vida que continuava a correr à sua volta e aos olhares de quem passava.

Finalmente, como se obedecessem ambas a um subtil sinal de um oculto maestro, afastaram-se um pouco, mãos nas mãos, olhos nos olhos, já sem as lágrimas que entretanto se tinham esgotado.

A angústia foi-se transformando em coragem, e as máscaras de sofrimento foram dando lugar às expressões características de quem tomou uma decisão e sabe o que tem de fazer para a pôr em prática. Num derradeiro olhar, e sem terem trocado uma única palavra, viraram-se e iniciaram o caminho de regresso de cabeça erguida, na altivez da certeza da decisão tomada, prontas para enfrentar o mundo.

terça-feira, 25 de março de 2008

Carta

Srª Dona Morte,

Tomo esta liberdade em lhe escrever para lhe fazer um pedido. Não se trata de um pedido qualquer, pois não ousaria ocupar-lhe o seu precioso tempo, tão necessário no desempenho da sua infindável missão, com um assunto de somenos importância, arriscando-me mesmo, quem sabe, a um exemplar castigo supremo.

Não, não se trata de lhe pedir que adie esse encontro que tem marcado comigo na sua agenda secreta, ou talvez não tenha qualquer encontro marcado e decida, a cada dia ou a cada momento que passa, com quem se encontrar a seguir. Em qualquer dos casos, sei-o bem, seria de todo inútil fazer-lhe tal pedido e, por isso mesmo, não ousaria incomoda-la apenas por esse motivo.

Não, também não se trata de lhe pedir informações sobre a data prevista para esse nosso encontro, tentando dessa forma saber acerca da sua proximidade ou distância, pois viver com essa informação não seria viver.

É, portanto, outra a natureza do pedido que venho fazer-lhe. O que lhe venho pedir é um pouco mais de equidade entre esse seu papel de encontrar e este outro, o meu, de encontrado. Não lhe peço que altere a sua agenda ou, se for esse o caso, que altere os critérios com que a cada momento decide com quem se vai encontrar. Peço-lhe sim a recíproca capacidade de também eu poder marcar o fatídico e final encontro consigo, podendo, dessa forma, antecipa-lo se esse for o meu desejo.

A Srª Dona Morte argumentará, certamente, que essa é uma capacidade de que já disponho, pois não faltam por ai formas e mecanismos que permitam a um comum mortal fazer valer a sua vontade em se encontrar consigo. De facto não faltam pontes, edifícios, escarpas, e outros locais com altura suficiente, e dos quais se possa mergulhar na sua direcção. Também não faltam os comboios, os carros e os camiões, e outras ferozes máquinas capazes de fazer cumprir esse objectivo. Não faltam, ainda, as farmácias com os farmacêuticos de serviço sempre prontos para, nas suas avidezes de comerciantes, venderem, sem necessidade da supostamente necessária receita médica, as substâncias apropriadas para atingir o fim em causa.

O problema, Srª Dona Morte, é que os homens e mulheres, cansados de verem completamente ignorados e recusados todos os pedidos que repetidamente lhe fazem para adiar encontros, ocuparam-se no desenvolvimento de uma ciência a que chamaram medicina, e com a qual, através de complexos malabarismos, lá vão conseguindo importantes adiamentos. Ora, acontece que esta mesma ciência é, por vezes, usada como instrumento de verdadeira tortura, prendendo à vida pessoas que, privadas do necessário uso das suas capacidades motoras, se vêm impossibilitadas de recorrer aos mecanismos acima referidos.

A Srª Dona Morte poderá sugerir que peça aos ilustres representantes políticos deste país, para que façam aprovar a necessária legislação no sentido de tornar legítimo o recurso à eutanásia, permitindo, desse modo, a um mortal impossibilitado de se encontrar consigo pelos seus próprios meios, a possibilidade de o fazer recorrendo a uma caridosa ajuda externa.

Saiba, no entanto, que esta não seria tarefa fácil. Seria, antes de mais, necessário convencer os referidos políticos a incluírem nas suas agendas este assunto, o que, por si só, seria uma grande conquista, pois não pode ser dado como certo o desejado retorno em índices de popularidade ou no número de votos conquistados em época de eleições. Por outro lado, seria necessário ultrapassar a feroz oposição das instituições religiosas, as quais, com o argumento da salvação, não hesitariam em fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir a aprovação de tal legislação, como se fossem elas e não eu as legítimas proprietárias deste corpo ateu.

Pelas razões apresentadas peço-lhe, Srª Dona Morte, se alguma vez a chamar, por favor venha.


Atenciosamente,

O Devaneante do Cantinho

sábado, 15 de março de 2008

Caprichos do Acaso - parte III

(continuação de Caprichos do Acaso - parte I e parte II)

Durante toda a semana não se tinha falado de outra coisa. Tinham sido incontáveis os debates promovidos pelos vários órgãos de comunicação social, tentando explorar ao máximo o filão mediático resultante da terceira repetição da mesma sequência no sorteio do loto.

Eram também incontáveis as diferentes teorias para explicar o sucedido. Desde os que afirmavam a pés juntos que a única explicação era a da existência de uma fraude, até aos que acreditavam tratar-se de um sinal divino da proximidade do fim do mundo. Havia também, mas em menor número, os que acreditavam tratar-se de uma mera coincidência.

No entanto, as longas e minuciosas investigações, feitas pelos peritos e pelas autoridades, nada conseguiram encontrar que sustentasse a tese de fraude. Também as autoridades do país vizinho, chamadas a investigar o sorteio feito nas instalações da entidade promotora do loto local, nada conseguiram encontrar que pudesse indiciar algo de anormal.

Ao longo da semana foi anormalmente elevada a afluência de fiéis aos locais de culto de várias religiões, para onde convergiram em massa todos aqueles que, receando a eminência do fim do mundo, se tentavam redimir dos pecados cometidos.

Entre os que acreditavam tratar-se de uma coincidência, e nos quais se incluía o perito promovido a comentador televisivo, circulavam os argumentos já anteriormente utilizados: que a probabilidade era muito baixa, mas não era nula… que qualquer outra combinação de outros três sorteios seria igualmente improvável… que o mundo não era mais do que uma grande sucessão de acontecimentos improváveis…

Na mais completa ausência de evidências da existência de fraude, a entidade promotora do jogo decidiu que o sorteio seguinte se faria nas condições normais, ou seja, nas suas instalações, com a sua tômbola, com as suas bolas, e à hora habitual. Naturalmente, o sorteio seria supervisionado por um grande batalhão de observadores, atentos a qualquer sinal que pudesse indiciar alguma forma de vício.

E assim, à hora marcada e com um número sem precedentes de espectadores, se inicia o novo sorteio. A imagem começa por mostrar demoradamente as bolas cuidadosamente ordenadas e com os números bem visíveis. Depois o ângulo abre para mostrar a tômbola ainda parada e que, breves segundos depois, começa a girar. As bolas caem dentro da tômbola onde se vão entrechocando até que uma delas inicia o seu movimento em direcção à primeira posição da calha… é o um…

O mundo ficou ainda mais suspenso… parecia inevitável a repetição daquela mesma sequência das três semanas anteriores! Os que defendiam a tese de fraude apressaram-se a chamar de incompetentes os investigadores, pois era inadmissível que não tivessem ainda desvendado o caso… Os que acreditavam na eminência do fim do mundo apressaram-se a retomar as suas preces, na convicção de estarem a presenciar mais um sinal divino…

A segunda bola inicia o trajecto da tômbola para a segunda posição na calha, onde se imobiliza ao lado da primeira, é o quarenta e um…

Nos bastidores do sorteio os responsáveis da entidade promotora do jogo, juntamente com o batalhão de observadores, respiraram de alívio e de um momento para o outro o ambiente, que se havia tornado tenso com a saída da primeira bola, desanuviou-se. Pelo mundo fora só alguns fiéis mais fervorosos pareceram ficar desiludidos por não se repetir aquele sinal considerado divino, como se ansiassem que o mundo estivesse mesmo à beira do fim.

Entretanto uma nova bola toma o seu lugar na calha, é o quarenta e dois… pouco depois junta-se-lhe a bola treze… depois a cinco… depois a seis… e, finalmente, a bola suplementar, a vinte e três.

Em sua casa, o perito comentador televisivo olha intrigado para a sequência de números, entretanto transcritos para um pedaço de papel, na mesma ordem em que tinham sido sorteados. De súbito levanta-se do sofá, dirige-se ao quarto do filho adolescente e pega na calculadora abandonada em cima da secretária. Liga a calculadora, carrega em duas teclas e fica a olhar alternadamente para o mostrador da calculadora e para o pedaço de papel com a sequência sorteada…

Sorriu e falou em voz alta:

“Mais uma chave improvável… tão improvável quanto qualquer outra, mas…”

Olhou de novo para a sequência…

Pitágoras que diria Pitágoras se fosse vivo e tivesse presenciado o sorteio de hoje?...”

FIM

sábado, 8 de março de 2008

Caprichos do Acaso - parte II

(continuação de Caprichos do Acaso - parte I)

Foi notícia de abertura do noticiário. Não por falta das habituais notícias sobre guerras, atentados, desastres, escândalos, desfalques, ou outras igualmente capazes de prender a atenção dos espectadores. Não pela falta de fenómenos novos ou bizarros, mas pelo bizarro fenómeno da repetição de um acontecimento já anteriormente acontecido.

O mesmo jornalista que na semana anterior tinha transmitido com alguma indiferença a notícia do primeiro acontecimento, usa agora o mesmo estilo com que costuma informar acerca das mais importantes notícias:

“Pela segunda semana consecutiva o sorteio do loto ditou exactamente a mesma chave. Os números de um a sete voltaram a sair, rigorosamente por esta ordem, repetindo o sorteio de há uma semana. Esta insólita repetição vem levantar fortes suspeitas de fraude e, por isso mesmo, foi já mandado instaurar um rigoroso inquérito para apurar eventuais irregularidades.”

Lá passaram, de novo, as imagens do sorteio, desta vez abreviadas aos momentos em que as várias bolas rolam da tômbola para a calha onde tomam o seu lugar, perfeitamente ordenadas de um a seis, com a bola sete a tomar posição exclusiva reservada ao número suplementar.

Seguiram-se imagens de um comunicado à imprensa, feito pelo responsável da entidade promotora do jogo, onde se anuncia o levantamento imediato do rigoroso inquérito necessário ao apuramento de eventuais irregularidades.

O jornalista anuncia a presença de um perito, chamado a comentar o sucedido, a quem pergunta:

“É possível, num sorteio que se supõe aleatório, haver semelhante repetição?”

“Bem, essa pergunta é bastante mais complexa do que imagina… É que, ao contrário do que possa parecer, os conceitos ‘possível’ e ‘aleatório’, não são de fácil definição.

O que é, afinal, um acontecimento aleatório?... um acontecimento que é influenciado por alguma forma de caos, contrariando a visão daqueles que acreditam num universo determinístico?... ou um acontecimento que simplesmente não conseguimos prever, dado o elevado número de condicionantes e de factores em jogo?

E onde está a fronteira entre o possível e o impossível?... Richard Feynman, prémio Nobel da Física em 1965, desenvolveu uma teoria em que defende que nada é impossível, e que mesmo o acontecimento mais bizarro tem alguma probabilidade de se verificar.

Portanto, e para evitar ficar aqui indefinidamente a divagar sobre estes assuntos, que a maior parte dos telespectadores acharia profundamente maçadores, vou limitar-me a analisar a situação numa perspectiva meramente probabilística.

E, do ponto de vista probabilístico, o facto de uma chave ter sido sorteada uma vez não implica que ela não se possa repetir uma segunda vez. Em cada sorteio cada chave é tão provável quanto qualquer outra, ou talvez seja mais correcto dizer que é tão improvável quanto qualquer outra. E como cada sorteio é completamente independente dos anteriores, nada impede a existência de repetições.

O número de sequências possíveis em dois sorteios de loto é demasiado grande, bastará dizer que se trata de um número com vinte e quatro algarismos para se ter uma ideia. Estou a referir-me ao número de sequências possíveis e não ao número de chaves, pois a situação que está em análise é a da dupla extracção da bola um até à bola sete, exactamente por esta ordem. Se estivesse a referir-me às chaves, a ordem não seria relevante e portanto a análise seria diferente.

Ora, nesse número de possíveis sequências apenas uma corresponde à sequência que se verificou nos dois últimos sorteios. Consequentemente a respectiva probabilidade era muito pequena…”

O jornalista, ávido por uma revelação bombástica, procura saltar rapidamente para as conclusões: “Ou seja, o mais provável é haver alguma anomalia, ou algum tipo de fraude, para que se tenha verificado esta repetição?”

“Não, não, de modo algum! O que eu disse relativamente à sequência que se verificou é válido para qualquer outra sequência, pois todas elas são igualmente improváveis… na verdade a sequência verificada no conjunto das duas últimas semanas era tão provável, ou improvável, quanto a sequência das duas semanas que lhe precederam.”

O jornalista, muito pouco convencido com as afirmações do perito, ou talvez desiludido por não ter podido revelar a inevitabilidade de uma fraude, dá por terminada a entrevista e avança para outros elementos de reportagem.

Ao longo da semana os apostadores premiados, em muito menor número que o habitual, pois ninguém esperava a repetição dos mesmos números, lá foram reclamando os respectivos prémios. Um dos dois apostadores premiados com o primeiro prémio na semana anterior, e que tinha insistido em repetir a mesma chave tal como vinha fazendo desde a primeira vez que jogara, foi o único totalista premiado.

Os apostadores habituais e os ocasionais lá foram registando as suas apostas para o sorteio seguinte, tal como vinha acontecendo desde a primeira semana em que se tinha iniciado este jogo.

Nas instalações da entidade promotora do jogo, a tômbola foi posta à prova incessantemente, com extracções atrás de extracções, na expectativa de encontrar algum padrão, algum vício, ou algum indício. As chaves assim obtidas foram sendo minuciosamente registadas por uma equipa de auditores, de peritos e de inspectores da polícia. No entanto, a análise estatística dos resultados obtidos revelou uma distribuição uniforme pelos vários números, consistente com o que seria de esperar de um processo que se pretendia aleatório.

Considerando que as investigações em curso não tinham, ainda, tido o tempo necessário para produzir conclusões definitivas, a entidade promotora do jogo decidiu pedir ajuda à entidade congénere do país vizinho, para fazer nas respectivas instalações a extracção seguinte.

E foi assim que, após a extracção normal do jogo local, a tômbola do país vizinho foi de novo preparada para aquele inédito sorteio. Chegado o momento, o processo de extracção é iniciado e as bolas vão saindo, cada uma na sua vez: bola um… bola dois… bola três… bola quatro… bola cinco… bola seis… bola sete.

(Continua)