segunda-feira, 14 de abril de 2008

Sonhos cruzados - parte I

Saiu penosamente da cama e foi cambaleando até à casa de banho. Deixou-se ficar sentada na sanita mais do que o tempo necessário para se aliviar das necessidades fisiológicas matinais, o tempo necessário para que o seu corpo e o seu cérebro despertassem. Finalmente levantou-se e, já mais desperta, meteu a mão pela porta para chegar ao interruptor e acender a luz. De olhos entreabertos para evitar o encandeamento da súbita luminosidade, olhou-se ao espelho, cumprindo o ritual de todas as manhãs.

A repentina surpresa fê-la abrir completamente os olhos para ver melhor aquela imagem que o espelho lhe devolvia, como se não fossem aqueles olhos azuis os mesmos que todas as manhãs a olhavam do lado de lá, como se fosse diferente aquele cabelo loiro de corte curto, ainda desalinhado pela almofada.

Virou-se para o chuveiro, achando-se estúpida por se ter surpreendido com o reflexo da sua imagem que tão bem conhecia, e preparava-se para abrir a água quente quando lhe vieram à memória imagens plantadas durante a noite… imagens de um espelho não muito diferente daquele ao qual tinha acabado de virar as costas, numa casa de banho não muito diferente desta sua… mas era bastante diferente a imagem que agora recordava, reflectida naquele outro espelho… a imagem de uma cara bonita, de olhos castanhos e cabelo escuro e comprido.

Enquanto entrava no duche para se colocar debaixo da chuva de água quente que todas as manhãs a resgatava, definitivamente, da sonolência, interrogou-se sobre aquele estranho sonho, tentando recordar mais detalhes e mais imagens. Estas foram-lhe aparecendo cada vez mais nítidas, quase reais, como se fossem fragmentos de um dia realmente vivido num outro corpo…

Finalmente desperta, e finalmente consciente das responsabilidades que a esperavam no escritório, apressou-se a sair do banho e a preparar-se para sair de casa. Engoliu rapidamente um copo de leite frio e saiu de casa ainda a mastigar uma bolacha.

Já no autocarro, vieram-lhe ao pensamento imagens da morena do sonho, também ela apressada para sair de casa e apanhar o autocarro. Para onde iria ela, qual seria o seu destino matinal?... Concentrou-se um pouco mais naquelas imagens, às quais se sucederam novas imagens, nítidas como se as tivesse vivido de verdade, de uma viagem de autocarro, depois um breve percurso a pé e, finalmente, a entrada num edifício moderno…

Saiu do autocarro e, enquanto percorria a pé o percurso final até ao escritório, continuou também a percorrer aquelas recordações… vestia agora uma bata branca e, enquanto metia as mãos por baixo do cabelo comprido para o libertar da bata, deixando-o solto, viu-se novamente reflectida no espelho, morena de cabelo comprido e olhos castanhos, bonita… depois, satisfeita com a imagem que o espelho lhe mostrava, afastou-se e entrou no laboratório onde se sentou no seu lugar e depositou os olhos castanhos no microscópio.

A recordação destas memórias foi interrompida com a chegada ao escritório. O patrão também já tinha chegado. O dia de trabalho que agora começava ia ser muito intenso, por isso entregou-se rapidamente às suas responsabilidades.

Na breve pausa para o almoço recordou a também breve pausa do almoço sonhado. Também ela, a morena, parecia atarefada, não pelo volume de trabalho que um qualquer patrão lhe entregava, mas pelo entusiasmo do trabalho em si. Não conseguia recordar-se da exacta natureza do trabalho dela, mas pressentia uma excitação que ela própria nunca sentira naquele trabalho de secretária de administração.

Muito do sucesso da viagem de negócios do patrão dependia do trabalho que ainda havia para fazer, e o sucesso dela própria dependia, também, deste mesmo sucesso. A tarde correu, por isso, ainda mais intensa que a manhã. Felizmente o dia seguinte, com o patrão em viagem, seria mais calmo.

A noite ia já avançada quando finalmente deixou tudo pronto e desceu para apanhar um táxi que a levasse de volta a casa. Enquanto o táxi a transportava através das luzes da cidade, o seu pensamento transportou-a de novo numa viagem pelas memórias adquiridas durante a noite. Deu-se conta que tinha sonhado um dia completo daquela outra mulher, morena de olhos castanhos, bonita… um dia desde o acordar até ao adormecer, passando por toda a azáfama de um dia de trabalho num laboratório.

Surpreendeu-se de novo com a nitidez com que se recordava de tudo, embora, por outro lado, não conseguisse recordar-se do nome dela, da morena… nem do nome dos seus colegas… esforçou-se por tentar reconstruir alguns dos diálogos sonhados, mas apesar de recordar com clareza o que tinha sido dito, não conseguia reconstruir as palavras, nem a língua em que tinham sido pronunciadas…

Mas estava demasiado cansada, por isso desligou-se do sonho e, já em casa, comeu qualquer coisa rápida e foi para a cama. Não teve dificuldades em adormecer.

Saiu penosamente da cama e foi cambaleando até à casa de banho. Deixou-se ficar sentada na sanita mais do que o tempo necessário para se aliviar das necessidades fisiológicas matinais, o tempo necessário para que o seu corpo e o seu cérebro despertassem. Finalmente levantou-se e, já mais desperta, meteu a mão pela porta para chegar ao interruptor e acender a luz. De olhos entreabertos para evitar o encandeamento da súbita luminosidade, olhou-se ao espelho, cumprindo o ritual de todas as manhãs.

A repentina surpresa fê-la abrir completamente os olhos para ver melhor aquela imagem que o espelho lhe devolvia, como se não fossem aqueles olhos castanhos os mesmos que todas as manhãs a olhavam do lado de lá, como se fosse diferente aquele cabelo escuro e comprido, ainda desalinhado pela almofada.

Virou-se para o chuveiro, achando-se estúpida por se ter surpreendido com o reflexo da sua imagem que tão bem conhecia, e preparava-se para abrir a água quente quando lhe vieram à memória imagens plantadas durante a noite… imagens de um espelho não muito diferente daquele ao qual tinha acabado de virar as costas, numa casa de banho não muito diferente desta sua… mas era bastante diferente a imagem que agora recordava, reflectida naquele outro espelho… a imagem de uma cara bonita, de olhos azuis e cabelo curto e loiro.

(continua)

9 comentários:

lélé disse...

"ad aeternum"?...

Cantinho dos devaneios disse...

lélé:
Nada é eterno...

Rui disse...

É um local difícil, esse onde se coloca a pensar. É o sítio dos dejá vus. Onde lidamos com o desnecessário. Mas há um parêntesis. Há esperança.

Carla disse...

há o espelho que nos diz para vivermos uma outra vida (a sonhada)...há ainda o espelho que nos diz que há vida para lá da nossa vida...temos sempre hipóteses de escolha

lélé disse...

Até ver, até ver!...

Se bem que eu já cá não estarei para ver!...

Lyra disse...

Os espelhos fariam bem em reflectir um pouco antes de nos devolverem as imagens...

Beijinhos e até breve.

;O)

CC disse...

Cá espero o que resta.

Grande abraço.

Lyra disse...

Olá!

Passei só para te dar um beijinho e desejar uma excelente semana.

Até breve.

;O)

MARIA MERCEDES disse...

Sonhos cruzados a tender para o húmido...!

A excitação da descoberta a caminho da segunda parte...!

Como sempre, tudo suspenso na possibilidade...

beijinhos sonhados