quinta-feira, 15 de maio de 2008

Sonhos Cruzados - parte V

(continuação de Sonhos Cruzados – partes I, II, III e IV)

Acordou pouco depois da hora habitual a que acordava durante a semana.

Procurou recordar o sonho da noite para ver se a carta que tinha enviado à morena tinha chegado intacta ao seu destinatário, e para ver se esta lhe tinha enviado alguma resposta…

Apercebeu-se da inutilidade dos seus esforços do dia anterior, mas foi com bastante entusiasmo que recordou o exacto número de unhas que a morena de cabelo comprido e olhos castanhos pintara de vermelho bem vivo.

Sentiu-se bastante satisfeita com o facto de terem encontrado uma forma de comunicar, mas haveria tempo para voltar a pensar no assunto durante a tarde, por isso voltou a fechar os olhos na tentativa de aproveitar a manhã de sábado para se recompor do cansaço acumulado ao longo da semana.

Acordou pouco depois da hora habitual a que acordava durante a semana.

Procurou recordar o sonho da noite para ver se tinha havido alguma evolução… mas desta vez o sonho fora estranhamente curto… apenas um acordar para voltar a adormecer numa manhã de sábado… optou por não pensar muito no assunto e resolveu, seguindo o exemplo da loira, fechar os olhos na tentativa de aproveitar a manhã de sábado para se recompor do cansaço acumulado ao longo da semana.

Acordou com o toque da campainha da porta. Os sucessivos toques das campainhas dos apartamentos vizinhos permitiram-lhe deduzir tratar-se de alguém a distribuir publicidade…

Acordou com o toque da campainha da porta. Os sucessivos toques das campainhas dos apartamentos vizinhos permitiram-lhe deduzir tratar-se de alguém a distribuir publicidade…

Não tinha de se incomodar, algum dos seus vizinhos ou vizinhas abriria a porta, mas sentia-se estranha, por isso levantou-se e dirigiu-se à casa de banho de olhos meio fechados…

Não tinha de se incomodar, algum dos seus vizinhos ou vizinhas abriria a porta, mas sentia-se estranha, por isso levantou-se e dirigiu-se à casa de banho de olhos meio fechados…

Sentiu-se perdida no quarto e foi com alguma dificuldade que acabou por dar com a porta da casa de banho. Sentia-se cada vez mais estranha…

Sentiu-se perdida no quarto e foi com alguma dificuldade que acabou por dar com a porta da casa de banho. Sentia-se cada vez mais estranha…

Levou as mãos à cara e depois ao cabelo… de repente sentiu o seu mundo desabar…

Levou as mãos à cara e depois ao cabelo… de repente sentiu o seu mundo desabar…

Numa súbita urgência de negar com os olhos a afirmação transmitida pelo tacto, correu a mão pela parede pelo lado de fora da porta da casa de banho até encontrar o interruptor…

Numa súbita urgência de negar com os olhos a afirmação transmitida pelo tacto, correu a mão pela parede pelo lado de fora da porta da casa de banho até encontrar o interruptor…

Com a mão a proteger os olhos da súbita luminosidade olhou-se ao espelho e deixou escapar um grito de horror…

Com a mão a proteger os olhos da súbita luminosidade olhou-se ao espelho e deixou escapar um grito de horror…

Do lado de lá olhavam-na uns olhos castanhos plantados numa cara morena de cabelo escuro comprido, emaranhado pela almofada…

Do lado de lá olhavam-na uns olhos azuis plantados numa cara branca de cabelo loiro e curto, levemente desalinhado pela almofada…

Puxou o cabelo para a frente dos olhos para ter a certeza de que não estava a ser enganada pelo espelho… mas não, lá estava o cabelo comprido e escuro…

Agarrou nuns quantos cabelos e arrancou-os para os poder olhar directamente e ter a certeza de que não estava a ser enganada pelo espelho… mas não, eram bem loiros aqueles cabelos entre os seus dedos, como era viva a dor de onde acabara de os arrancar…

Incrédula, recuou até à porta da casa de banho e deteve-se um pouco a olhar à sua volta.

Incrédula, recuou até à porta da casa de banho e deteve-se um pouco a olhar à sua volta.

Virou-se para o quarto, vagamente iluminado pela luz atrás de si e, de novo, olhou à volta.

Virou-se para o quarto, vagamente iluminado pela luz atrás de si e, de novo, olhou à volta.

Saiu apressadamente do quarto e percorreu a casa toda olhando vagamente em todas as direcções…

Saiu apressadamente do quarto e percorreu a casa toda olhando vagamente em todas as direcções…

Não havia dúvida, estava na casa da morena!…

Não havia dúvida, estava na casa da loira!…

Encostada numa parede deixou-se deslizar até ficar sentada no chão.

Encostada numa parede deixou-se deslizar até ficar sentada no chão.

Tentou recordar-se do seu nome… mas por mais que tentasse só conseguia lembrar-se do nome da morena…

Tentou recordar-se do seu nome… mas por mais que tentasse só conseguia lembrar-se do nome da loira…

Não havia dúvida, estava no corpo da morena… no mundo da morena... e com as memórias da morena!...

Não havia dúvida, estava no corpo da loira… no mundo da loira... e com as memórias da loira!...

***

Não voltou a saber da loira de cabelo curto e olhos azuis, nem mesmo em sonhos.

Não voltou a saber da morena de cabelo comprido e olhos castanhos, nem mesmo em sonhos.

FIM

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Sonhos Cruzados – parte IV

(continuação de Sonhos Cruzados – partes I, II e III)

Por alguns instantes, ali sentada na cama, apoderou-se dela uma enorme frustração pela inutilidade daquele trabalho, como se tivesse sido ela própria a tê-lo e não a loira de cabelo curto e olhos azuis. Tantas horas de cuidadosa dedicação e memorização… e tudo para nada!…

Depois, pensando melhor, concluiu que aquela tinha sido apenas a primeira etapa de um caminho de descoberta, do qual não podia desistir logo ao primeiro fracasso! Não, de facto desistir não fazia o género dela.

Enquanto tomava o banho matinal foi tentando organizar as ideias e tentando descobrir alguma porta entreaberta, ou a ponta de um véu que pudesse levantar para, finalmente, revelar os segredos escondidos…

Lembrou-se da possibilidade de recorrer a algum evento desportivo, social, ou político de nível mundial. Mesmo que não conseguissem estabelecer um outro tipo de contacto, talvez fosse possível encontrarem-se em algum local que ambas conseguissem estabelecer como referência…

Foi então que se deu conta de que se recordava com bastante detalhe de todas as caras que se haviam cruzado na frente dos olhos azuis da loira de cabelo curto. E também as caras que se haviam cruzado na frente dos seus olhos castanhos apareciam claras nas imagens recordadas dos sonhos da loira.

Foi tentando identificar outros detalhes dos quais se recordava com clareza para depois procurar alguma forma de os usar para passar informação… lembrava-se das roupas que a outra vestia, da cor do batom, do verniz das unhas, daquilo que comia… “o verniz das unhas!” exclamou em voz alta… Sim, essa poderia ser uma forma!...

Saiu rapidamente do banho e, depois de se secar cuidadosamente, pintou algumas unhas das mãos, o mesmo número de unhas do primeiro dígito do seu número de telefone, começando pelo indicativo internacional. Se o esquema funcionasse, e se a loira seguisse o exemplo, bastariam alguns dias para ambas saberem em que países viviam. Depois, com mais alguns dias, teriam o número de telefone completo e poderiam, finalmente, entrar em contacto.

Sentiu-se ridícula assim com algumas unhas pintadas e outras por pintar… e certamente iria ser alvo da curiosidade dos colegas no laboratório, mas tudo isso lhe parecia pouco importante face ao objectivo em vista… De qualquer modo, tal como vinha acontecendo nas últimas semanas, o volume de trabalho que a esperava não deixaria muitas oportunidades para alimentar conversas à volta do assunto.

Chegou a casa já bastante tarde. Tinha conseguido terminar todo o trabalho que se havia proposto fazer, mas agora estava muito cansada… Felizmente era sexta-feira!... no dia seguinte poderia descansar um pouco mais… e poderia voltar a pensar na loira de cabelo curto e olhos azuis, e nas possíveis formas de com ela comunicar. Mas, para já, era urgente descansar… e era também urgente que a loira acordasse…

Não teve dificuldade em adormecer.

(continua, mas o fim está próximo)

sábado, 3 de maio de 2008

Sonhos Cruzados - parte III

(continuação de Sonhos Cruzados – parte I e parte II)

Ali continuou sentada, na beira da cama, tentando encontrar uma explicação… Era como se tanto ela como a morena do sonho fossem, de facto, pessoas reais… duas pessoas ligadas uma à outra, de tal forma que enquanto uma vivia o seu dia, a outra sonhava, na sua noite, aquele dia vivido…

Como seria possível uma coisa assim?... que magias?... que deuses?... que demónios?... que forças ocultas estariam por detrás de uma tal ligação?... e porquê ela?... porquê elas?! E quem seria a morena?... onde viveria?... em que país e em que cidade?...

Fechou os olhos e esforçou-se por se lembrar de algum detalhe que lhe pudesse dar uma pista. Assim foi percorrendo os sonhos das últimas duas noites, tentando encontrar alguma informação que lhe permitisse ter uma ideia acerca do local onde vivia a morena de cabelo comprido e olhos castanhos. Mas por mais que tentasse, e apesar de a maior parte das imagens daqueles sonhos lhe aparecerem tão claras como se tivesse sido ela a vê-las com os seus próprios olhos, não conseguia recordar qualquer detalhe que a pudesse ajudar naquela tarefa. Além disso, continuava a não conseguir recordar o nome da morena nem língua que falava.

Estava num beco sem saída… o local onde a outra vivia poderia ser um entre muitos milhares espalhados pelo globo… e mesmo que a fisionomia dela e das outras pessoas com quem se cruzara lhe permitissem excluir algumas zonas do globo, ficavam ainda muitas outras possibilidades.

Saiu da cama enquanto continuava a pensar numa forma de sair daquele impasse. Enquanto tomava o banho matinal, que desta vez não servia de despertador, pois o seu cérebro começara a trabalhar a todo o vapor assim que acordara, tomou uma decisão. Ao longo do dia trataria de plantar nas suas memórias várias referências que, depois de sonhadas pela morena, poderiam dar a esta alguma referência. Já que ela não conseguira recordar-se de qualquer informação útil, talvez conseguisse passar à outra informações sobre ela própria.

Sentada no autocarro, a caminho do escritório, foi pensado como seria aquele hipotético futuro encontro entre ela e a morena… de que forma influenciaria as suas vidas?... de que falariam?... conseguiriam comunicar-se numa língua que ambas entendessem?... e como sonhariam depois esse encontro?...

Ocorreu-lhe que a morena poderia viver precisamente do outro lado do planeta… a noite de uma coincidindo com o dia da outra… e a vigília de uma com o sono e o sonho da outra…

Já no escritório ligou o computador e começou a navegar pela internet procurando fotografias e descrições dos locais e dos monumentos mais simbólicos do país. Juntou tudo num documento, no qual acrescentou uma página onde, em letras bem grandes, escreveu o nome do país e da cidade em que vivia. Ao longo do dia, foi visitando várias vezes este documento, percorrendo cuidadosamente cada página, para garantir que este ficaria devidamente implantado na sua memória.

Quando o paquete interno do escritório lhe trouxe a correspondência do dia, sorriu ao pensar que o que estava a tentar fazer era, nada mais, nada menos, que enviar uma carta à morena de cabelo comprido e olhos castanhos. Não estava a usar o serviço dos correios, nem colocara qualquer endereço de destino, mas, ainda assim, era de uma carta que se tratava, e sabia que seria recebida pelo destinatário pretendido.

Foi com muita expectativa que, já em casa, esperou pelo sono que, assim esperava, haveria de levar à morena toda aquela preciosa informação. No entanto, a expectativa e o sono não costumam ser bons companheiros, e era já bastante tarde quando finalmente conseguiu adormecer.

O despertador arrancou-a do sono à hora habitual de qualquer dia de trabalho. Preparava-se para sair da cama quando lhe vieram à memória as primeiras imagens daquele sonho… tinha sonhado de novo com a loira de cabelo curto e olhos azuis…

Ali continuou sentada, na beira da cama, relembrando cada detalhe do sonho… o beliscão no braço, as conclusões a que a outra tinha chegado, a tentativa de saber alguma coisa sobre ela própria e, finalmente, a tentativa de lhe enviar uma carta com informações sobre o local onde vivia…

Tentou então lembrar-se daquelas páginas daquela carta que a loira lhe tentara enviar, mas, por mais que se esforçasse, não conseguiu recordar nem o que estava escrito nem as imagens das fotografias tão criteriosamente seleccionadas…

(continua)

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Sonhos Cruzados - parte II

(continuação de Sonhos Cruzados – parte I)

Enquanto entrava no duche para se colocar debaixo da chuva de água quente que todas as manhãs a resgatava, definitivamente, da sonolência, interrogou-se sobre aquele estranho sonho, tentando recordar mais detalhes e mais imagens. E foi de olhos fechados, com a água do chuveiro a cair-lhe na cabeça e a escorre-lhe pelo corpo, que se deu conta do sonho daquela outra mulher com quem tinha sonhado… apercebeu-se que a outra, a loira de cabelo curto e olhos azuis, tinha sonhado com ela, a morena de cabelo comprido e olhos castanhos…

Ali ficou estática, recordando aquele sonho que se prolongava pelo dia de trabalho de uma mulher loira de cabelo curto e olhos azuis… um dia de trabalho intenso, aqui e ali salpicado pelas recordações de um sonho onde era uma morena de cabelo comprido e olhos castanhos…

Estava bastante confusa… ela, morena de cabelos compridos e olhos castanhos, tinha tido um sonho no qual era uma outra mulher, loira de cabelo curto e olhos azuis, que, por sua vez, tinha tido um sonho no qual era uma outra… A loira do sonho tinha sonhado com o dia que ela própria, a morena, tinha vivido ontem!…

As imagens daquele sonho apareciam-lhe tão nítidas como se as tivesse vivido de verdade… Abriu os olhos e debruçou-se um pouco para se conseguir olhar no espelho, já meio embaciado pelo vapor do chuveiro, só para ter a certeza de que este lhe devolvia a imagem de uma cara com cabelo escuro e comprido…

Ocorreu-lhe então uma ideia perturbadora… a ideia de que ela própria poderia não ser mais do que um sonho sonhado pela loira de cabelo curto e olhos azuis… Quase instintivamente beliscou-se violentamente no braço, na expectativa de acordar em sobressalto e de correr para a casa de banho para encontrar a sua imagem, de cabelo loiro curto e olhos azuis, reflectida no espelho.

Mas não… ali continuava, com a água quente a escorrer-lhe pelo corpo e uma dor bem viva no braço esquerdo… Podia então concluir que ela era real e que a outra, a loira de cabelo curto e olhos azuis, era apenas uma criação da sua imaginação… um sonho estranho, mas apenas isso, um sonho!...

Apressou-se a terminar o banho e a arranjar-se para sair de casa para mais um dia de trabalho. Tinha um programa bastante apertado de experiências para realizar e não podia dar-se ao luxo de perder tempo por causa de um simples sonho.

Ao longo do dia só a dor persistente no seu braço esquerdo, e a mancha que gradualmente se fora transformando de vermelho para verde escuro, lhe trouxeram recordações ocasionais daquela manhã e das imagens plantadas durante a noite. Passava já bastante da normal hora de jantar quando, finalmente, conseguiu concluir o programa de experiências e de observações que tinha programado para aquele dia.

Finalmente em casa, e depois de comer qualquer coisa rápida, sentou-se no sofá e ligou a televisão no canal de notícias para se pôr a par com o que tinha acontecido pelo mundo. No entanto, o cansaço apoderou-se rapidamente dela, e foi já meio cambaleante que se dirigiu para o quarto e se enfiou dentro da cama. Não teve dificuldades em adormecer.

O despertador arrancou-a do sono à hora habitual de qualquer dia de trabalho. Preparava-se para sair da cama quando lhe vieram à memória as primeiras imagens daquele sonho… tinha sonhado de novo com a morena de cabelo comprido e olhos castanhos…

Apercebeu-se então que também a morena tinha sonhado com ela… lembrou-se das dúvidas da morena e do beliscão no braço… lembrou-se da conclusão a que chegara pelo facto de não ter acordado… seria possível?... seria ela, a loira, um mero sonho da morena?... Quase instintivamente sentou-se na cama e beliscou-se violentamente no braço, na expectativa de acordar em sobressalto e de correr para a casa de banho para encontrar a sua imagem, de cabelo escuro comprido e olhos castanhos, reflectida no espelho.

Mas não… ali continuava, sentada naquela mesma cama com uma dor bem viva no braço esquerdo…

(continua)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Sonhos cruzados - parte I

Saiu penosamente da cama e foi cambaleando até à casa de banho. Deixou-se ficar sentada na sanita mais do que o tempo necessário para se aliviar das necessidades fisiológicas matinais, o tempo necessário para que o seu corpo e o seu cérebro despertassem. Finalmente levantou-se e, já mais desperta, meteu a mão pela porta para chegar ao interruptor e acender a luz. De olhos entreabertos para evitar o encandeamento da súbita luminosidade, olhou-se ao espelho, cumprindo o ritual de todas as manhãs.

A repentina surpresa fê-la abrir completamente os olhos para ver melhor aquela imagem que o espelho lhe devolvia, como se não fossem aqueles olhos azuis os mesmos que todas as manhãs a olhavam do lado de lá, como se fosse diferente aquele cabelo loiro de corte curto, ainda desalinhado pela almofada.

Virou-se para o chuveiro, achando-se estúpida por se ter surpreendido com o reflexo da sua imagem que tão bem conhecia, e preparava-se para abrir a água quente quando lhe vieram à memória imagens plantadas durante a noite… imagens de um espelho não muito diferente daquele ao qual tinha acabado de virar as costas, numa casa de banho não muito diferente desta sua… mas era bastante diferente a imagem que agora recordava, reflectida naquele outro espelho… a imagem de uma cara bonita, de olhos castanhos e cabelo escuro e comprido.

Enquanto entrava no duche para se colocar debaixo da chuva de água quente que todas as manhãs a resgatava, definitivamente, da sonolência, interrogou-se sobre aquele estranho sonho, tentando recordar mais detalhes e mais imagens. Estas foram-lhe aparecendo cada vez mais nítidas, quase reais, como se fossem fragmentos de um dia realmente vivido num outro corpo…

Finalmente desperta, e finalmente consciente das responsabilidades que a esperavam no escritório, apressou-se a sair do banho e a preparar-se para sair de casa. Engoliu rapidamente um copo de leite frio e saiu de casa ainda a mastigar uma bolacha.

Já no autocarro, vieram-lhe ao pensamento imagens da morena do sonho, também ela apressada para sair de casa e apanhar o autocarro. Para onde iria ela, qual seria o seu destino matinal?... Concentrou-se um pouco mais naquelas imagens, às quais se sucederam novas imagens, nítidas como se as tivesse vivido de verdade, de uma viagem de autocarro, depois um breve percurso a pé e, finalmente, a entrada num edifício moderno…

Saiu do autocarro e, enquanto percorria a pé o percurso final até ao escritório, continuou também a percorrer aquelas recordações… vestia agora uma bata branca e, enquanto metia as mãos por baixo do cabelo comprido para o libertar da bata, deixando-o solto, viu-se novamente reflectida no espelho, morena de cabelo comprido e olhos castanhos, bonita… depois, satisfeita com a imagem que o espelho lhe mostrava, afastou-se e entrou no laboratório onde se sentou no seu lugar e depositou os olhos castanhos no microscópio.

A recordação destas memórias foi interrompida com a chegada ao escritório. O patrão também já tinha chegado. O dia de trabalho que agora começava ia ser muito intenso, por isso entregou-se rapidamente às suas responsabilidades.

Na breve pausa para o almoço recordou a também breve pausa do almoço sonhado. Também ela, a morena, parecia atarefada, não pelo volume de trabalho que um qualquer patrão lhe entregava, mas pelo entusiasmo do trabalho em si. Não conseguia recordar-se da exacta natureza do trabalho dela, mas pressentia uma excitação que ela própria nunca sentira naquele trabalho de secretária de administração.

Muito do sucesso da viagem de negócios do patrão dependia do trabalho que ainda havia para fazer, e o sucesso dela própria dependia, também, deste mesmo sucesso. A tarde correu, por isso, ainda mais intensa que a manhã. Felizmente o dia seguinte, com o patrão em viagem, seria mais calmo.

A noite ia já avançada quando finalmente deixou tudo pronto e desceu para apanhar um táxi que a levasse de volta a casa. Enquanto o táxi a transportava através das luzes da cidade, o seu pensamento transportou-a de novo numa viagem pelas memórias adquiridas durante a noite. Deu-se conta que tinha sonhado um dia completo daquela outra mulher, morena de olhos castanhos, bonita… um dia desde o acordar até ao adormecer, passando por toda a azáfama de um dia de trabalho num laboratório.

Surpreendeu-se de novo com a nitidez com que se recordava de tudo, embora, por outro lado, não conseguisse recordar-se do nome dela, da morena… nem do nome dos seus colegas… esforçou-se por tentar reconstruir alguns dos diálogos sonhados, mas apesar de recordar com clareza o que tinha sido dito, não conseguia reconstruir as palavras, nem a língua em que tinham sido pronunciadas…

Mas estava demasiado cansada, por isso desligou-se do sonho e, já em casa, comeu qualquer coisa rápida e foi para a cama. Não teve dificuldades em adormecer.

Saiu penosamente da cama e foi cambaleando até à casa de banho. Deixou-se ficar sentada na sanita mais do que o tempo necessário para se aliviar das necessidades fisiológicas matinais, o tempo necessário para que o seu corpo e o seu cérebro despertassem. Finalmente levantou-se e, já mais desperta, meteu a mão pela porta para chegar ao interruptor e acender a luz. De olhos entreabertos para evitar o encandeamento da súbita luminosidade, olhou-se ao espelho, cumprindo o ritual de todas as manhãs.

A repentina surpresa fê-la abrir completamente os olhos para ver melhor aquela imagem que o espelho lhe devolvia, como se não fossem aqueles olhos castanhos os mesmos que todas as manhãs a olhavam do lado de lá, como se fosse diferente aquele cabelo escuro e comprido, ainda desalinhado pela almofada.

Virou-se para o chuveiro, achando-se estúpida por se ter surpreendido com o reflexo da sua imagem que tão bem conhecia, e preparava-se para abrir a água quente quando lhe vieram à memória imagens plantadas durante a noite… imagens de um espelho não muito diferente daquele ao qual tinha acabado de virar as costas, numa casa de banho não muito diferente desta sua… mas era bastante diferente a imagem que agora recordava, reflectida naquele outro espelho… a imagem de uma cara bonita, de olhos azuis e cabelo curto e loiro.

(continua)

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Encontro

Nunca se tinha sentido tão triste e tão angustiada. Precisava de chegar a casa para se esconder, para chorar, para gritar!… entrou na casa de banho e lavou a cara com água fria, numa tentativa desesperada de segurar as lágrimas que lhe rebentavam nos olhos, e o grito que lhe subia pela garganta. Olhou a sua cara molhada no espelho e viu-a totalmente transfigurada naquela máscara de sofrimento. Secou apressadamente a cara, saiu da casa de banho, contornou os corredores, meteu pela escadaria e iniciou a descida.

O elevador seria mais rápido do que descer a pé os quatro andares que a separavam da rua, mas não queria encontrar-se com mais ninguém, muito menos no espaço apertado do elevador. As escadas, pelo contrário, estariam desertas, e mesmo que se cruzasse com alguém menos comodista, poderia continuar a descer apressadamente, reduzindo os eventuais encontros a simples cruzamentos de ombro com ombro... não de olhos com olhos, que esses seguiam colados aos degraus que lhe fugiam debaixo dos pés a grande velocidade, com a mão firme no corrimão para evitar alguma fatal perda de equilíbrio.

O frio do inverno tardio bateu-lhe na cara, ajudando-a a reprimir as lágrimas. Avançou pela rua, meio curvada, não para se esconder do frio, mas para se esconder do mundo e das outras pessoas que passavam. Apressou o passo pelo caminho mais curto, seguindo curvada e encostada às paredes dos prédios, numa tentativa desesperada de se esconder dos olhares da multidão que, apesar de frios e indiferentes, a trespassavam como flechas em chama.

Subitamente, ao virar para outra rua, chocou de frente com alguém que vinha no sentido oposto, também curvada e também encostada às paredes dos prédios, numa igual tentativa de se esconder de frios e indiferentes olhares.

Frente a frente olharam-se mutuamente. Nunca se tinham visto, mas reconheceram na cara uma da outra a mesma tristeza, a mesma angústia, a mesma máscara de sofrimento.

Instintivamente envolveram-se num abraço forte e contínuo, não num abraço de amantes, mas num abraço de irmãs. As lágrimas, impossíveis de reprimir por mais tempo, irromperam em enxurradas incontroláveis e os gritos soltaram-se das gargantas. Num tempo que não conseguiram contabilizar, o universo ficou reduzido a elas próprias, alheias à vida que continuava a correr à sua volta e aos olhares de quem passava.

Finalmente, como se obedecessem ambas a um subtil sinal de um oculto maestro, afastaram-se um pouco, mãos nas mãos, olhos nos olhos, já sem as lágrimas que entretanto se tinham esgotado.

A angústia foi-se transformando em coragem, e as máscaras de sofrimento foram dando lugar às expressões características de quem tomou uma decisão e sabe o que tem de fazer para a pôr em prática. Num derradeiro olhar, e sem terem trocado uma única palavra, viraram-se e iniciaram o caminho de regresso de cabeça erguida, na altivez da certeza da decisão tomada, prontas para enfrentar o mundo.

terça-feira, 25 de março de 2008

Carta

Srª Dona Morte,

Tomo esta liberdade em lhe escrever para lhe fazer um pedido. Não se trata de um pedido qualquer, pois não ousaria ocupar-lhe o seu precioso tempo, tão necessário no desempenho da sua infindável missão, com um assunto de somenos importância, arriscando-me mesmo, quem sabe, a um exemplar castigo supremo.

Não, não se trata de lhe pedir que adie esse encontro que tem marcado comigo na sua agenda secreta, ou talvez não tenha qualquer encontro marcado e decida, a cada dia ou a cada momento que passa, com quem se encontrar a seguir. Em qualquer dos casos, sei-o bem, seria de todo inútil fazer-lhe tal pedido e, por isso mesmo, não ousaria incomoda-la apenas por esse motivo.

Não, também não se trata de lhe pedir informações sobre a data prevista para esse nosso encontro, tentando dessa forma saber acerca da sua proximidade ou distância, pois viver com essa informação não seria viver.

É, portanto, outra a natureza do pedido que venho fazer-lhe. O que lhe venho pedir é um pouco mais de equidade entre esse seu papel de encontrar e este outro, o meu, de encontrado. Não lhe peço que altere a sua agenda ou, se for esse o caso, que altere os critérios com que a cada momento decide com quem se vai encontrar. Peço-lhe sim a recíproca capacidade de também eu poder marcar o fatídico e final encontro consigo, podendo, dessa forma, antecipa-lo se esse for o meu desejo.

A Srª Dona Morte argumentará, certamente, que essa é uma capacidade de que já disponho, pois não faltam por ai formas e mecanismos que permitam a um comum mortal fazer valer a sua vontade em se encontrar consigo. De facto não faltam pontes, edifícios, escarpas, e outros locais com altura suficiente, e dos quais se possa mergulhar na sua direcção. Também não faltam os comboios, os carros e os camiões, e outras ferozes máquinas capazes de fazer cumprir esse objectivo. Não faltam, ainda, as farmácias com os farmacêuticos de serviço sempre prontos para, nas suas avidezes de comerciantes, venderem, sem necessidade da supostamente necessária receita médica, as substâncias apropriadas para atingir o fim em causa.

O problema, Srª Dona Morte, é que os homens e mulheres, cansados de verem completamente ignorados e recusados todos os pedidos que repetidamente lhe fazem para adiar encontros, ocuparam-se no desenvolvimento de uma ciência a que chamaram medicina, e com a qual, através de complexos malabarismos, lá vão conseguindo importantes adiamentos. Ora, acontece que esta mesma ciência é, por vezes, usada como instrumento de verdadeira tortura, prendendo à vida pessoas que, privadas do necessário uso das suas capacidades motoras, se vêm impossibilitadas de recorrer aos mecanismos acima referidos.

A Srª Dona Morte poderá sugerir que peça aos ilustres representantes políticos deste país, para que façam aprovar a necessária legislação no sentido de tornar legítimo o recurso à eutanásia, permitindo, desse modo, a um mortal impossibilitado de se encontrar consigo pelos seus próprios meios, a possibilidade de o fazer recorrendo a uma caridosa ajuda externa.

Saiba, no entanto, que esta não seria tarefa fácil. Seria, antes de mais, necessário convencer os referidos políticos a incluírem nas suas agendas este assunto, o que, por si só, seria uma grande conquista, pois não pode ser dado como certo o desejado retorno em índices de popularidade ou no número de votos conquistados em época de eleições. Por outro lado, seria necessário ultrapassar a feroz oposição das instituições religiosas, as quais, com o argumento da salvação, não hesitariam em fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir a aprovação de tal legislação, como se fossem elas e não eu as legítimas proprietárias deste corpo ateu.

Pelas razões apresentadas peço-lhe, Srª Dona Morte, se alguma vez a chamar, por favor venha.


Atenciosamente,

O Devaneante do Cantinho

sábado, 15 de março de 2008

Caprichos do Acaso - parte III

(continuação de Caprichos do Acaso - parte I e parte II)

Durante toda a semana não se tinha falado de outra coisa. Tinham sido incontáveis os debates promovidos pelos vários órgãos de comunicação social, tentando explorar ao máximo o filão mediático resultante da terceira repetição da mesma sequência no sorteio do loto.

Eram também incontáveis as diferentes teorias para explicar o sucedido. Desde os que afirmavam a pés juntos que a única explicação era a da existência de uma fraude, até aos que acreditavam tratar-se de um sinal divino da proximidade do fim do mundo. Havia também, mas em menor número, os que acreditavam tratar-se de uma mera coincidência.

No entanto, as longas e minuciosas investigações, feitas pelos peritos e pelas autoridades, nada conseguiram encontrar que sustentasse a tese de fraude. Também as autoridades do país vizinho, chamadas a investigar o sorteio feito nas instalações da entidade promotora do loto local, nada conseguiram encontrar que pudesse indiciar algo de anormal.

Ao longo da semana foi anormalmente elevada a afluência de fiéis aos locais de culto de várias religiões, para onde convergiram em massa todos aqueles que, receando a eminência do fim do mundo, se tentavam redimir dos pecados cometidos.

Entre os que acreditavam tratar-se de uma coincidência, e nos quais se incluía o perito promovido a comentador televisivo, circulavam os argumentos já anteriormente utilizados: que a probabilidade era muito baixa, mas não era nula… que qualquer outra combinação de outros três sorteios seria igualmente improvável… que o mundo não era mais do que uma grande sucessão de acontecimentos improváveis…

Na mais completa ausência de evidências da existência de fraude, a entidade promotora do jogo decidiu que o sorteio seguinte se faria nas condições normais, ou seja, nas suas instalações, com a sua tômbola, com as suas bolas, e à hora habitual. Naturalmente, o sorteio seria supervisionado por um grande batalhão de observadores, atentos a qualquer sinal que pudesse indiciar alguma forma de vício.

E assim, à hora marcada e com um número sem precedentes de espectadores, se inicia o novo sorteio. A imagem começa por mostrar demoradamente as bolas cuidadosamente ordenadas e com os números bem visíveis. Depois o ângulo abre para mostrar a tômbola ainda parada e que, breves segundos depois, começa a girar. As bolas caem dentro da tômbola onde se vão entrechocando até que uma delas inicia o seu movimento em direcção à primeira posição da calha… é o um…

O mundo ficou ainda mais suspenso… parecia inevitável a repetição daquela mesma sequência das três semanas anteriores! Os que defendiam a tese de fraude apressaram-se a chamar de incompetentes os investigadores, pois era inadmissível que não tivessem ainda desvendado o caso… Os que acreditavam na eminência do fim do mundo apressaram-se a retomar as suas preces, na convicção de estarem a presenciar mais um sinal divino…

A segunda bola inicia o trajecto da tômbola para a segunda posição na calha, onde se imobiliza ao lado da primeira, é o quarenta e um…

Nos bastidores do sorteio os responsáveis da entidade promotora do jogo, juntamente com o batalhão de observadores, respiraram de alívio e de um momento para o outro o ambiente, que se havia tornado tenso com a saída da primeira bola, desanuviou-se. Pelo mundo fora só alguns fiéis mais fervorosos pareceram ficar desiludidos por não se repetir aquele sinal considerado divino, como se ansiassem que o mundo estivesse mesmo à beira do fim.

Entretanto uma nova bola toma o seu lugar na calha, é o quarenta e dois… pouco depois junta-se-lhe a bola treze… depois a cinco… depois a seis… e, finalmente, a bola suplementar, a vinte e três.

Em sua casa, o perito comentador televisivo olha intrigado para a sequência de números, entretanto transcritos para um pedaço de papel, na mesma ordem em que tinham sido sorteados. De súbito levanta-se do sofá, dirige-se ao quarto do filho adolescente e pega na calculadora abandonada em cima da secretária. Liga a calculadora, carrega em duas teclas e fica a olhar alternadamente para o mostrador da calculadora e para o pedaço de papel com a sequência sorteada…

Sorriu e falou em voz alta:

“Mais uma chave improvável… tão improvável quanto qualquer outra, mas…”

Olhou de novo para a sequência…

Pitágoras que diria Pitágoras se fosse vivo e tivesse presenciado o sorteio de hoje?...”

FIM

sábado, 8 de março de 2008

Caprichos do Acaso - parte II

(continuação de Caprichos do Acaso - parte I)

Foi notícia de abertura do noticiário. Não por falta das habituais notícias sobre guerras, atentados, desastres, escândalos, desfalques, ou outras igualmente capazes de prender a atenção dos espectadores. Não pela falta de fenómenos novos ou bizarros, mas pelo bizarro fenómeno da repetição de um acontecimento já anteriormente acontecido.

O mesmo jornalista que na semana anterior tinha transmitido com alguma indiferença a notícia do primeiro acontecimento, usa agora o mesmo estilo com que costuma informar acerca das mais importantes notícias:

“Pela segunda semana consecutiva o sorteio do loto ditou exactamente a mesma chave. Os números de um a sete voltaram a sair, rigorosamente por esta ordem, repetindo o sorteio de há uma semana. Esta insólita repetição vem levantar fortes suspeitas de fraude e, por isso mesmo, foi já mandado instaurar um rigoroso inquérito para apurar eventuais irregularidades.”

Lá passaram, de novo, as imagens do sorteio, desta vez abreviadas aos momentos em que as várias bolas rolam da tômbola para a calha onde tomam o seu lugar, perfeitamente ordenadas de um a seis, com a bola sete a tomar posição exclusiva reservada ao número suplementar.

Seguiram-se imagens de um comunicado à imprensa, feito pelo responsável da entidade promotora do jogo, onde se anuncia o levantamento imediato do rigoroso inquérito necessário ao apuramento de eventuais irregularidades.

O jornalista anuncia a presença de um perito, chamado a comentar o sucedido, a quem pergunta:

“É possível, num sorteio que se supõe aleatório, haver semelhante repetição?”

“Bem, essa pergunta é bastante mais complexa do que imagina… É que, ao contrário do que possa parecer, os conceitos ‘possível’ e ‘aleatório’, não são de fácil definição.

O que é, afinal, um acontecimento aleatório?... um acontecimento que é influenciado por alguma forma de caos, contrariando a visão daqueles que acreditam num universo determinístico?... ou um acontecimento que simplesmente não conseguimos prever, dado o elevado número de condicionantes e de factores em jogo?

E onde está a fronteira entre o possível e o impossível?... Richard Feynman, prémio Nobel da Física em 1965, desenvolveu uma teoria em que defende que nada é impossível, e que mesmo o acontecimento mais bizarro tem alguma probabilidade de se verificar.

Portanto, e para evitar ficar aqui indefinidamente a divagar sobre estes assuntos, que a maior parte dos telespectadores acharia profundamente maçadores, vou limitar-me a analisar a situação numa perspectiva meramente probabilística.

E, do ponto de vista probabilístico, o facto de uma chave ter sido sorteada uma vez não implica que ela não se possa repetir uma segunda vez. Em cada sorteio cada chave é tão provável quanto qualquer outra, ou talvez seja mais correcto dizer que é tão improvável quanto qualquer outra. E como cada sorteio é completamente independente dos anteriores, nada impede a existência de repetições.

O número de sequências possíveis em dois sorteios de loto é demasiado grande, bastará dizer que se trata de um número com vinte e quatro algarismos para se ter uma ideia. Estou a referir-me ao número de sequências possíveis e não ao número de chaves, pois a situação que está em análise é a da dupla extracção da bola um até à bola sete, exactamente por esta ordem. Se estivesse a referir-me às chaves, a ordem não seria relevante e portanto a análise seria diferente.

Ora, nesse número de possíveis sequências apenas uma corresponde à sequência que se verificou nos dois últimos sorteios. Consequentemente a respectiva probabilidade era muito pequena…”

O jornalista, ávido por uma revelação bombástica, procura saltar rapidamente para as conclusões: “Ou seja, o mais provável é haver alguma anomalia, ou algum tipo de fraude, para que se tenha verificado esta repetição?”

“Não, não, de modo algum! O que eu disse relativamente à sequência que se verificou é válido para qualquer outra sequência, pois todas elas são igualmente improváveis… na verdade a sequência verificada no conjunto das duas últimas semanas era tão provável, ou improvável, quanto a sequência das duas semanas que lhe precederam.”

O jornalista, muito pouco convencido com as afirmações do perito, ou talvez desiludido por não ter podido revelar a inevitabilidade de uma fraude, dá por terminada a entrevista e avança para outros elementos de reportagem.

Ao longo da semana os apostadores premiados, em muito menor número que o habitual, pois ninguém esperava a repetição dos mesmos números, lá foram reclamando os respectivos prémios. Um dos dois apostadores premiados com o primeiro prémio na semana anterior, e que tinha insistido em repetir a mesma chave tal como vinha fazendo desde a primeira vez que jogara, foi o único totalista premiado.

Os apostadores habituais e os ocasionais lá foram registando as suas apostas para o sorteio seguinte, tal como vinha acontecendo desde a primeira semana em que se tinha iniciado este jogo.

Nas instalações da entidade promotora do jogo, a tômbola foi posta à prova incessantemente, com extracções atrás de extracções, na expectativa de encontrar algum padrão, algum vício, ou algum indício. As chaves assim obtidas foram sendo minuciosamente registadas por uma equipa de auditores, de peritos e de inspectores da polícia. No entanto, a análise estatística dos resultados obtidos revelou uma distribuição uniforme pelos vários números, consistente com o que seria de esperar de um processo que se pretendia aleatório.

Considerando que as investigações em curso não tinham, ainda, tido o tempo necessário para produzir conclusões definitivas, a entidade promotora do jogo decidiu pedir ajuda à entidade congénere do país vizinho, para fazer nas respectivas instalações a extracção seguinte.

E foi assim que, após a extracção normal do jogo local, a tômbola do país vizinho foi de novo preparada para aquele inédito sorteio. Chegado o momento, o processo de extracção é iniciado e as bolas vão saindo, cada uma na sua vez: bola um… bola dois… bola três… bola quatro… bola cinco… bola seis… bola sete.

(Continua)

quarta-feira, 5 de março de 2008

Carrossel

Mais uma volta se completou e uma nova percorreu já os primeiros graus, neste carrossel infindável que um dia terá fim. Um fim talvez próximo, ou talvez distante... Desejavelmente distante, mas só se a roda puder rodar livre e se forem poucas as areias da engrenagem.

Não que os 360 graus da volta completa sejam um acontecimento especialmente notável que mereça comemoração... apenas um marco que permite incrementar a contagem das voltas completas... até porque o fim, quando chegar, indiferente aos graus percorridos dessa volta que será a última, só por infeliz acaso coincidirá com o fim de uma volta e o inicio da seguinte.

Das voltas passadas fica um número e uma memória. Nas voltas futuras encontram-se os sonhos... os que para sempre serão sonhos por concretizar, os que se concretizarão mesmo não tendo sido sonhados e, certamente, também alguns pesadelos...

Vivam as voltas futuras!... Vivam-se as voltas futuras!

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Caprichos do Acaso - parte I

Foi notícia de abertura do noticiário. Não que o acontecimento fosse especialmente extraordinário, como o jornalista fez questão de salientar, mas porque, na ausência das habituais notícias sobre guerras, atentados, desastres, escândalos, desfalques, ou outras igualmente capazes de prender a atenção dos espectadores, o director de informação achou ser aquela a que melhor permitira reduzir a probabilidade de eles se sentirem tentados a procurar melhor sorte noutro canal.

“O sorteio do loto não é, normalmente, tema de abertura dos noticiários, mas o sorteio de hoje ditou uma chave curiosa. Os números sorteados foram o um, o dois, o três, o quatro, o cinco, o seis, e o número suplementar o sete. Mais curioso ainda é o facto de os números terem saído exactamente por esta ordem, ou seja, do um ao sete.”

As imagens dos momentos em que cada um dos números saiu da tômbola foram repetidas. Uma jornalista, de quem não se vê a cara, mas que se imagina tão doce quanto a sua voz, descreve o sucedido, como se as imagens, por si só, não fossem prova bastante.

O perito, chamado a comentar o sucedido, também faz questão de realçar que o facto nada tem de anormal:

“De facto, a chave sorteada hoje é tão provável quanto qualquer outra, tão provável quanto cada uma das que foram sorteadas nas semanas anteriores, e que não foram motivo de abertura de noticiários.

A probabilidade de o número um ser o primeiro a sair é de uma em quarenta e nove. Depois de ter saído o um, a probabilidade de sair o dois é de uma em quarenta e oito, e assim sucessivamente. A probabilidade do sorteio de hoje era de uma em quarenta e nove, vezes quarenta e oito, vezes quarenta e sete, vezes quarenta e seis, vezes quarenta e cinco, vezes quarenta e quatro, vezes quarenta e três. Ou seja, de uma em quatrocentos e trinta e dois mil milhões novecentos e trinta e oito milhões novecentos e quarenta e três mil trezentos e sessenta… mas esta é exactamente a mesma probabilidade da sequência sorteada na semana passada, se tivermos em conta a ordem em que os números saíram.”

Durante os dias seguintes, aparte alguns comentários ocasionais em conversas de circunstância, pouca atenção voltou a ser dada à curiosa chave do loto. Os apostadores premiados lá foram reclamando os respectivos prémios, uns melhores que outros, em função da quantidade de números acertados. Houve mesmo dois apostadores a acertar na chave sorteada e, consequentemente, dividiram entre si o primeiro prémio.

Os apostadores habituais e os ocasionais lá foram registando as suas apostas para o sorteio seguinte, tal como vinha acontecendo desde a primeira semana em que se tinha iniciado este jogo.

Chega o momento do novo sorteio… a câmara foca a tômbola que gira… depois a imagem mostra a bola que vai rolando pela saída até à primeira posição na calha, é o um… a imagem mostra, de novo, a tômbola que gira… e logo de seguida uma nova bola rola e toma o seu lugar a seguir à primeira, é o dois… uma vez mais a tômbola que gira… e uma nova bola que rola e que toma o seu lugar, é o três… outra vez a tômbola que gira… e outra vez a bola que rola, é o quatro… a tômbola que gira… a bola que rola, é o cinco… a tômbola… a bola, é o seis… a tômbola que continua girando e que para de girar no momento em que a bola do número suplementar inicia, rolando, o seu caminho até ao lugar que lhe está reservado, e onde para de rolar… é o sete.

(Continua)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Encontros de olhares

Queria ir para casa, já não suportava mais aquele vai e vem de loja em loja com a mãe sempre a puxar-lhe pela mão.

“Mãe, vamos para casa!...”

“Tem calma, amanhã é o teu primeiro dia de escola e ainda nos falta comprar muita coisa!”

Sim, ia para a escola… há vários dias que não parava de pensar como seria esse dia, como seriam os colegas… como seria o professor… a mãe tinha-lhe dito que na escola todos os meninos e meninas tinham de se portar sempre muito bem, que tinham de estar todos com muita atenção ao que o professor dizia... tinha medo!...

De repente o seu olhar cruzou-se com outro olhar... sem saber porquê vieram-lhe à memória imagens difusas... tudo muito branco... um berço... lençóis frios... chorou no seu choro de bebé recém-nascido... uma voz calma sussurrou-lhe uma melodia ao ouvido e aconchegou-lhe o lençol... parou de chorar... ouvem-se vozes, vozes que não consegue entender... algum reboliço e depois o silêncio... o seu olhar cruza-se com outro olhar num berço ali ao lado... o mesmo olhar que agora está à sua frente e que olha com igual medo e igual perplexidade!...

“Vamos, vamos... valha-me Deus, ainda temos de ir comprar as batas brancas!...”

...

Enquanto espera na paragem pelo autocarro, recorda aquele medo que antecedeu o primeiro dia de escola... não é muito diferente o medo de hoje!... o primeiro dia de trabalho!... quase não conseguiu dormir na expectativa desse novo futuro que hoje começava...

Entra no autocarro e aconchega-se num lugar junto à janela, mesmo por detrás do motorista. Pouco depois o autocarro imobiliza-se no final de uma fila de carros que esperam impacientemente pelo verde do semáforo. Do outro lado da rua, numa fila de espera para um autocarro que tarda em chegar, o seu olhar cruza-se com outro olhar...

Vêm-lhe à memória as imagens da azafama das compras na véspera do primeiro dia de escola, e logo de seguida as imagens difusas do branco, do berço, dos lençóis frios, do choro de bebé, da melodia, do outro olhar vindo do berço ali ao lado... o mesmo olhar que agora está à sua frente e que olha com igual expectativa e igual perplexidade!...

A impaciência da espera pelo verde do semáforo dá lugar à pressa de passar antes do regresso do vermelho...

...

Deteve-se inconscientemente em frente da montra de uma loja de artigos para crianças. O seu olhar foi percorrendo a montra até se deter no seu próprio reflexo. Estava verdadeiramente feliz... uma felicidade que podia ser vista, mesmo no difuso reflexo da montra... Há menos de quatro meses que tinham decidido ter um filho, mas só hoje, após a confirmação da análise feita na farmácia, tinham realmente começado a entender a importância dessa decisão.

Pouco depois, enquanto espera na estação pelo comboio do metro que porá fim aquela interrupção da rotina normal de um dia de trabalho, outro comboio faz a paragem obrigatória do outro lado da linha colocando à sua frente um outro olhar...

Vêm-lhe à memória as imagens de uma viagem de autocarro, as imagens da azafama das compras na véspera do primeiro dia de escola, as imagens difusas do outro olhar do berço ali ao lado... o mesmo olhar que agora está à sua frente e que olha com igual felicidade e igual perplexidade!...

...

Alguém lhe diz “não se preocupe, vai correr tudo bem”... já na maca olha para o lado e vê o que resta do carro acidentado... interroga-se se será mesmo possível ter saído dali com vida... enquanto a maca avança em direcção à ambulância, surge-lhe no campo de visão, numa outra maca, um outro olhar...

Vêm-lhe à memória as imagens de um comboio numa estação de metro, as imagens de uma viagem de autocarro, as imagens da azafama de um dia de compras, as imagens difusas do outro olhar do berço ali ao lado... o mesmo olhar que agora está ao seu lado e que olha com igual sofrimento e igual perplexidade!...

...

Tinha finalmente cedido aos incessantes argumentos dos filhos para se reformar... que devia aproveitar o resto da vida para se divertir, para passear, para conviver com os netos... que já tinha dado contributo mais do que bastante à sociedade... E assim se tinha resignado à condição imposta pela idade...

Em frente do edifício da Segurança Social, onde acabara de tratar das últimas burocracias, fez sinal a um táxi que passava. Do outro lado da rua alguém sai de outro táxi e começa a atravessar a rua. Nos breves instantes em que o taxista leva a interpretar a morada de destino pretendida e o início da viagem, o seu olhar cruza-se com aquele outro olhar...

Vêm-lhe à memória as imagens ensanguentadas de uma maca que entra para uma ambulância, as imagens de uma estação de metro, as imagens de um autocarro, as imagens de um dia de compras, as imagens difusas do outro olhar do berço ali ao lado... o mesmo olhar que agora está ao seu lado e que olha com igual resignação e igual perplexidade!...

...

Um cortejo passa o portão e segue em marcha lenta. O silêncio é apenas perturbado pelo distante chilrear de alguns pássaros e pelo som dos passos lentos no caminho, no mais profundo contraste entre a alegria dos primeiros e o luto dos segundos.

À porta do cemitério outro cortejo espera pela sua vez.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Descoberta Indiscreta - parte III

(continuação da Descoberta Indiscreta - parte I e parte II)

Tinha na sua frente a mais extraordinária aplicação para a sua descoberta... e no entanto, se pudesse, voltaria atrás... abdicaria de todo este sucesso... abdicaria dos Prémios Nobel da Física e da Medicina... só para poder viver o resto da sua vida sem aquilo...

Mas não havia forma de voltar atrás, a avalanche tinha começado e era agora completamente impossível pará-la. Em breve, no espaço de meses, aquela tecnologia estaria disponível a qualquer pessoa no mundo... meses que poderiam ser dias para quem tivesse os meios apropriados...

Era o fim dos segredos, o fim das mentiras, o fim dos esconderijos, o fim dos crimes por resolver, o fim dos ataques surpresa, o fim das dúvidas da história, o fim dos bluffs, o fim dos detectives, o fim dos erros da justiça, o fim dos adultérios, o fim das portas trancadas, o fim dos cofres, o fim da privacidade...

Todos os jogos passariam a jogar-se com as cartas viradas para cima... tudo o que pertencesse ao passado, ainda que por insignificantes fracções de segundo, poderia ser visto sem limitações...

O telemóvel vibrou em cima da secretária, mostrando o nome do seu amigo do CERN no visor. Atendeu. Antes que pudesse pronunciar alguma palavra, já o silêncio se quebrara do outro lado da linha:

“Don’t waste your time trying to find any flaw in your calculations, they are correct...

I have put together some of my lab’s equipment and I have been watching the world for almost a week now... I have found some very interesting things!... right now I am watching what you were doing less than two minutes ago. I can’t get any closer to the present with this equipment, but it will not be very difficult to build a device that could break this barrier down to a few microseconds.”

“So this is the end of privacy...”

“Yes, the end of privacy, the end of all kinds of secrets...”

“The end of the world as we know it...”

“Yes, and the beginning of a new one... fortunately your discovery only allows us to look into the past, so we will have to wait to see if it is going to be a better one...”

FIM

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Descoberta Indiscreta - parte II

(continuação da Descoberta Indiscreta - parte I)

Puxou para si o teclado e o rato do computador e introduziu a sua palavra-chave. Abriu caixa de correio e preparou-se para a árdua tarefa de encontrar a mensagem do seu amigo. Ao contrário do telemóvel, o seu endereço de correio electrónico era muito conhecido e as mensagens não tinham parado de chegar, incessantemente, desde o dia em que a descoberta se tinha tornado pública.

Havia mensagens de todos os tipos possíveis e imaginários, isto para não falar das mensagens de SPAM que lhe propunham toda uma infindável panóplia de produtos e serviços. Felizmente instalara um programa que lhe eliminava a esmagadora maioria destas mensagens, no entanto algumas conseguiam iludir o automatismo e lá lhe apareciam oferecendo as mais fantásticas soluções para, entre outras coisas irrecusáveis, melhorar o seu desempenho sexual ou para aumentar o tamanho do pénis.

Costumava brincar com os seus colegas dizendo “alguma daquelas tipas que levei para a cama deve ter ficado insatisfeita e decidiu fazer-me um favor dando o meu endereço a especialistas reconhecidos na matéria...”. Maneira de falar e de brincar, pois sempre optara por se manter fiel aquela relação que já durava há quase vinte e cinco anos, e para a qual não tinha sido necessária a bênção de um padre nem o formalismo de um conservador.

Lá estava, finalmente, a mensagem do seu amigo do CERN. Abriu-a e começou a ler com a atenção que o cansaço acumulado lhe permitia.

Como raio se teria o amigo lembrado daquelas condições?... que aplicação útil poderia resultar dali?... Recostou-se de novo na cadeira e fechou os olhos para melhor se concentrar no desafio que lhe era proposto. Durante vários minutos ficou assim, montando mentalmente as condições e prevendo os resultados, como quem joga uma partida de xadrez sem usar tabuleiro.

De repente esbugalhou os olhos como se, nesse preciso instante fosse necessário ver alguma resposta estampada à sua frente. Continuou de olhos esbugalhados e olhar vago à medida que se foi endireitando na cadeira. Depois, como se repentinamente tivesse tomado uma importante decisão, numa súbita necessidade de reproduzir no tabuleiro o xadrez mentalmente jogado, retirou uma folha de papel do tabuleiro da impressora, pegou num lápis e começou a debitar fórmulas e símbolos matemáticos, uns a seguir aos outros... retirou uma segunda folha do tabuleiro da impressora... e depois uma terceira.

Dispôs as folhas lado a lado e ali ficou durante algum tempo, a olhar para elas, procurando encontrar uma jogada ilegal, de um cavalo que não desenhou correctamente o “L”, de um Bispo que se desviou da diagonal, de um peão demasiado apressado... de uma divisão por zero, de uma tangente de um ângulo recto, de uma co-tangente de um ângulo nulo ou raso, de uma raiz quadrada de um número negativo, de um logaritmo de um número que não fosse maior que zero...

Mas não, todas as peças se tinham movido escrupulosamente dentro das regras, não havia nenhum erro, nenhuma passagem em falso, nenhuma violação das regras da matemática que o pudesse salvar daquele desfecho inevitável e inquestionável...

(Continua)