(Continuação de O viajante – Parte I)
"Erro no Sistema de Teletransporte Instantâneo". Esta mensagem dizia-lhe exactamente aquilo que ele já tinha percebido por si só, o sistema de teletransporte tinha tido uma falha.
Tinha essa capacidade de manter a calma, mesmo nas situações mais complexas, por isso mesmo tinha sido escolhido para aquela missão. A situação podia ser muito séria, ou tudo podia não passar de uma pequena anomalia que facilmente se poderia solucionar, por isso respirou fundo e dirigiu a sua atenção para o computador. Acedeu à área de testes e deu instruções para a execução das rotinas de teste e diagnóstico do sistema de teletransporte.
Enquanto esperava pelos resultados foi pensando nas possíveis razões para a situação em que se encontrava. Desde que haviam sido descobertos e divulgados os mecanismos de base do teletransporte, ele tinha-se empenhado em compreender o seu funcionamento, e tinha mesmo integrado a equipa de cientistas que tinha concebido e construído os primeiros protótipos. O sistema que fora colocado nesta nave não era muito diferente desses primeiros protótipos, além disso, como parte integrante do seu treino, ele tinha estudado exaustivamente todos os sistemas colocados a bordo. Esses conhecimentos poderiam revelar-se, agora, muito preciosos.
Os sistemas de teletransporte tinham sido descobertos há pouco mais de quatro anos por duas equipas independentes de cientistas. Estas equipas tinham descoberto, de forma totalmente independente, dois fenómenos físicos distintos que permitiam, cada um deles, a possibilidade de transportar matéria de um local no espaço para outro local distinto, sem a necessidade de percorrer o espaço tridimensional entre esses dois locais. Curiosamente nenhum destes sistemas seguia as linhas de investigação que, até então, a ciência e a ficção científica vinham explorando.
Apesar de terem sido descobertos quase em simultâneo, os dois sistemas eram completamente distintos. O primeiro, conhecido como Sistema de Teletransporte Instantâneo (STTI), permitia o transporte quase instantâneo de matéria entre dois locais, no entanto era bastante complexo e exigia a utilização de dispositivos de alta tecnologia, combinados numa máquina pesada e volumosa.
O segundo sistema de teletransporte, conhecido por Sistema de Teletransporte Adiado (STTA), era consideravelmente mais simples que o primeiro, no entanto a sua utilização obrigava a que uma viagem no espaço fosse também acompanhada por uma viagem no Tempo. Um viajante que utilizasse este sistema poderia ser transportado de um local no espaço para outro, mas enquanto para ele essa viagem seria praticamente instantânea, para um observador externo ela demoraria algum tempo. Este tempo dependia de vários factores de difícil contabilização, como a quantidade e a natureza da matéria a teletransportar, ou as intensidades dos campos magnéticos e gravíticos dos pontos de origem e de destino, podendo variar, aproximadamente, entre um terço e um vigésimo do tempo necessário para um raio de luz percorrer o espaço entre os dois pontos.
Esta característica estava a despertar um grande interesse de algumas empresas pelos STTA. Pretendiam utilizar sistemas destes para oferecer aos seus clientes uma forma de viajar para o futuro, permitindo-lhes, a troco de uma avultada soma de dinheiro, a possibilidade de ‘saltarem’ para o futuro.
A nave em que se encontrava estava equipada com os dois sistemas de teletransporte. O STTA fora incluído pelo facto de não ser muito complexo e de, ao contrário do STTI, ocupar pouco espaço, proporcionando ao astronauta uma forma alternativa de regresso à Terra no caso de uma falha não recuperável no STTI.
Enquanto continuava à espera dos resultados do programa de testes e diagnóstico, olhou pelas janelas à procura de um ponto mais brilhante que lhe indicaria a proximidade de uma estrela, desejavelmente do Sol, mas a sua busca foi interrompida por mudanças no ecrã do computador. O programa de testes e diagnóstico indicava-lhe uma falha num dos componentes mais sensíveis do complexo sistema de teletransporte.
Desapertou os cintos de segurança que o seguravam à cadeira e flutuou para a parte de trás da nave até um painel marcado com STTI. Rodou dois manípulos, abriu o painel e entrou dentro de um compartimento lotado com complexos dispositivos, interligados por um emaranhado de cabos e tubos. Do lado direito, um pouco acima da sua cabeça, o dispositivo que o computador identificara estava visivelmente danificado.
Não teve dúvidas de que não tinha como reparar aquela avaria. Onde quer que estivesse, não poderia contar com aquele sistema para voltar à Terra.
(Continua)


6 devaneio(s):
Já li!
Não resisti!!!
Embora esteja sem tempo para ler também as referências que deixas.
Por isso vou limitar-me a um comentário simples.
Volto mais tarde para LER e aprender.
Depois volto a comentar.
Entretanto digo-te já que está cada vez mais empolgante!
És um narrador fantático!
Consigo imaginar a nave, os espaços e sistemas que descreves, como se estivesse a ver o filme!
Tens que enviar o guião ao Spielberg!!!
:-)))
Abraço e Parabéns
Estou a adorar!
É um dos tipos de aventura que me fascina.
Fenix
Visito-te através da comentadora precedente, a Fénix e é com imenso gosto que o faço. Interessantíssimo o que contas. esperarei o seguimento. Beijos.
Fénix: Volta quando quiseres, és sempre bem vinda! :-)
Paula Raposo: Bem vinda a este modesto cantinho e obrigado pela visita e pelo comentário. Espero manter-me ao nível das expectativas criadas.
Em frente, estou deliciado.
Mesmo não sabendo onde, nem quando, ele sabe que está em algum lugar e em algum tempo... Ainda não está tudo perdido e aqui estamos nós expectantes, para aprender a sair de um sarilho desses...
Já reli ambas as partes, li também as referências e..., até fiz alguns cálculos simples...
Se o Viajante se deslocasse entre o planeta distante (a mais de 300 anos-luz da Terra), e a Terra à custa do STTA, dependendo da forma como a intensidade dos campos magnéticos e gravíticos participam na equação, as coordenados espaço-tempo teriam que ter uma correcção (ou poderiam ter um erro) entre 15 e 100 anos.
Visto que foi usado o STTI e houve um erro, supostamente ele terá apenas feito um deslocamento errado no espaço, permanecendo no mesmo tempo.
Uma vez que já não poderá voltar a usar o STTI, terá agora que usar o STTA..., não sabe onde (espaço) em que está, mas (pelo meu raciocínio anterior) sabe em que tempo está.
Não refere a existência de planetas à sua volta e as estrelas parecem estar suficientemente distantes para não terem grande interferência nos campos magnéticos e gravíticos que afectam a nave naquele local.
Não sei como são introduzidas coordenadas no STTA, mas julgo que são estes os dados disponíveis e a que o Viajante terá de recorrer...
A não ser que me escapado algum detalhe..., claro!
:-)
(ou que o autor resolva dar uma das suas surpreendentes - e sempre espectaculares - reviravoltas ao texto)
Beijinhos
Fico a aguardar..., em suspense...
:-)))
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