segunda-feira, 9 de março de 2009

Fios de memória

Acontece-me, por vezes, virem-me à memória imagens distantes de situações vividas há já bastante tempo. Depois, a partir dessas primeiras, outras segundas se lhe seguem e depois terceiras e quartas, e assim sucessivamente até que alguma coisa à minha volta me faz acordar desse sonhar acordado e me traz de volta à realidade. É como se as memórias estivessem ligadas por um fio invisível que ao ser puxado trouxesse agarradas, umas após as outras, aquelas imagens de outros tempos.

Por vezes o fio de memória tem uma base comum que me faz saltar de uma recordação para a outra. Uma situação, um local, uma pessoa, ou simplesmente um sentir, são o suficiente para trazer à superfície imagens, directa ou indirectamente, associadas a essa mesma situação, pessoa ou sentir.

Outras vezes as imagens sucedem-se sem que exista essa tal base comum, ou talvez seja mais correcto dizer que ela existe e que apenas não me é aparente.

Há ainda os casos em que, como referia a amiga lélé num texto recente, o fio de memória me conduz por recordações adulteradas, ou mesmo completamente forjadas, como se as imagens de um sonho tivessem conseguido atravessar a fronteira entre esse mundo, supostamente imaginário, e este outro, supostamente real.

E no meio de todas essas recordações, puxadas por esse fio invisível, surgem-me por vezes imagens que estavam esquecidas nas profundezas da memória há tanto tempo que é inevitável ficar maravilhado...

Daqui em diante, sempre que um destes fios de memória não me parecer demasiado desinteressante ou impróprio, aqui o partilharei com quem vier espreitar neste cantinho. O primeiro desses fios já foi puxado, falta agora transcrever em palavras as imagens que ele me trouxe.

5 devaneio(s):

Fenix disse...

Desinteressante?
Pode parecer-te a ti..., mas podias deixar os teus leitores decidirem... :-)
Impróprio?
Quanto mais impróprio mais interessante! ;-)

Pois é..., as minhas memórias também me surgem de forma semelhante à que tu narráste. Aquilo a que chamas um fio de memória (e que bem pode ser assim chamado) eu costumo chamar de cerejas..., tal como se costuma dizer das conversas, que são como as cerejas, não se consegue tirar uma sem que venha outra atrás e ainda outra agarrada a essa...
Também a mim me surgem dessa forma, associadas a alguma coisa, as coisas que dissés-te e ainda outras como cheiros e sons.
Também saltito de umas para outras e às vezes vêm em catadupa, como se uma tromba de água-memórias se despejasse de repente sobre mim. às vezes são tantas que mesmo que as quizesse escrever não conseguiria porque não teria rapidez de escrita suficiente. Por vezes tenho que me forçar a voltar à realidade porque me sinto naufragar em memórias e a maior parte das vezes "morro" de saudade.
Curiosamente já julgava esquecidas a maior parte destas memórias.
Até há cerca de um ano atrás estava mesmo convencida de que as tinha perdido todas. Mas eis que algo acontece que "abana" a minha vida. Procuro pessoas do meu passado e com essas pessoas vêm memórias e com elas outras memórias ainda muito mais antigas. Como se estivesse tudo encerrado no mesmo baú que agora foi aberto.
E quanto às falsas memórias..., também as tenho e sei de onde me vêm. Já aconteceu várias vezes ouvir o meu pai contar algo e depois eu digo que me lembro daquilo. Ele responde-me que não posso lembrar-me porque ainda nem tinha nascido. Então sei que interiorizei a memória como se a tivesse vivido, mas apenas por ouvir o meu pai contar, desde pequena.

Bem..., é melhor parar.
Estou a transformar este comentário num post. Estou a abusar da tua página de comentários!
Como sempre, aliás!
:-(

OK, já estou instalada num cantinho confortável do teu Cantinho, aconchegada entre almofadas fofas e já oiço os primeiros acordes da banda sonora de abertura, "Assim falou Zaratrusta".
Estou à espera...

Beijinhos e boa semana!
São

Rui disse...

Publiquei ontem um arame e este teu texto fez-me lembrar uma coisa que publiquei em Outubro de 2005, e que se chama A Linha. Acho que tem tudo a ver com os fios de que falas, não sendo exactamente a mesma coisa.

Também me acontece o que narras. E vejo-me aflito para evitar emaranhados.

lélé disse...

O fio das memórias funciona como o dos diccionários e/ou enciclopédias, não é? Vamos à procura de uma palavra, um assunto e, a certa altura, já visitámos tantos outros, que até esquecemos aquele que lá nos levou!... É nessas alturas (também) que eu tenho a nítida percepção de que a disciplina é uma imposição, isto é, não nasce connosco!

Si disse...

E então para quando, o desenrolar desses fios??
Vamos ter de esperar muito, ainda??
Vamos lá a arregaçar os manguitos, a afiar o lápis, descontrair os dedos e começar a empreitada!

Desconhecida disse...

O que seriamos nós, como pessoas a viver o presente, sem as memórias de um passado? Seriamos pessoas diferentes? ...Penso que sim :)

Adorei este (e outros) texto(s) do teu blog.

beijinho
P.s. já agora, nada melhor que devaneios :)