terça-feira, 22 de janeiro de 2008

... cause every little thing gonna be all right...

Entrei no carro para o meu desejado regresso a casa, no final de mais um típico dia de trabalho, cheio de típicas reuniões, de típicos telefonemas, e de um sem número de outras típicas chatices.

Pelo rádio vão chegando alguns sons intermitentes, transportados pelas ondas que, por entre o ruído branco, vão conseguindo penetrar nas estruturas de betão até lugar onde me encontro, na cave do estacionamento.

À medida que vou subindo até à superfície, o ruído branco vai perdendo cada vez mais terreno, revelando-se cada vez mais nítida a emissão de rádio da TSF. Reconheço a voz de Carlos Vaz Marques, que tantas vezes me faz companhia no meu regresso a casa, com o seu programa Pessoal e Transmissível.

Fala-se de guerra com um entrevistado que responde em inglês e que Carlos Vaz Marques vai traduzindo.

Um relato de alguém que perdeu a conta das pessoas que matou ou ajudou a matar… de alguém que, naquela altura, tinha como ídolo o seu Comandante, cujos feitos de tirania aleatória eram tomados como modelo de bravura e coragem por todo o pelotão…

Tudo fica mais claro quando, finalmente, percebo que o entrevistado é um ex-menino soldado que combateu entre os 12 e os 18 anos.

Ishmael Beah, hoje com 27 anos, foi salvo da guerra civil da Serra Leoa em 1998 por um programa da UNICEF. Em 2004 concluiu um bacharelato em Ciências Políticas numa escola dos EUA, e em 2007 publicou o livro A Long Way Gone: Memoirs of a Boy Soldier (também editado em português).

A certa altura o entrevistador pergunta sobre o que ajudou Ishmael a recuperar das memórias de guerra e da droga de que se tinha tornado dependente. Ishmael fala das músicas de que tanto gostava antes da guerra, e às quais se agarrou no seu processo de recuperação, como se elas fossem uma ponte entre o antes e o depois… Fala, em particular, de uma música de Bob Marley: Three Little Birds… e canta esta melodia, da qual conhece de cor os versos:

Dont worry about a thing,
cause every little thing gonna be all right.
Singin: dont worry about a thing,
cause every little thing gonna be all right!

Rise up this mornin,
Smiled with the risin sun,
Three little birds
Pitch by my doorstep
Singin sweet songs
Of melodies pure and true,
Sayin, (this is my message to you-ou-ou:)

Singin: dont worry bout a thing,
cause every little thing gonna be all right.
Singin: dont worry (dont worry) bout a thing,
cause every little thing gonna be all right!

Parado numa qualquer fila de trânsito, enquanto o vermelho de sangue não dá lugar ao verde de esperança, alguém na fila do lado estranha o sorriso dorido e a lágrima que me escorre pela cara, como se a sabedoria popular estivesse gravemente ofendida por afinal haver homens que choram.

Solta-se mais uma lágrima enquanto penso nos outros meninos soldado que nunca puderam cantar “… cause every little thing gonna be all right…”

4 comentários:

MARIA MERCEDES disse...

Welcome to the club...das memórias a cheirar a humidades na selva das guerrilhas.

beijinho

A Túlipa disse...

Percebo-te bem. E os homens, choram pois. Porque não?
É realmente um vazio. sim, porque antes de tristeza é um vazio. não sabemos realmnte como é. Não sonhamos sequer.
E mesmo asim, a imaginação dá-nos o suficiente para chorar.

É forte. És forte. Por chorar e ainda o admitir.

'

The F Word disse...

Também concordo com a túlipa.

Um homem chorar, ou melhor UMA PESSOA chorar (que isto não tem a ver com género), nos tempos dormentes que correm, pela dor de outras pessoas, é sinal de força, de estrutura.

Fenix disse...

Chorar não é sinal de fraqueza mas sim de sensibilidade. As pessoas sensíveis, homens ou mulheres, são as que prefiro.
Admitir que se chora quando as emoções são fortes é sinal de honestidade e beleza interior.
Subis-te muitos pontos na minha consideração. E eu sei o que é viver no meio da guerrilha e dos meninos guerreiros...