sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O viajante – parte VIII

(Continuação de O viajante – Partes I, II, III, IV, V, VI e VII)

A expressão dela tornou-se um pouco mais sombria. Fez uma pausa antes de responder:

“Os seus pais partiram já há mais de dez anos, primeiro o seu pai, depois a sua mãe, menos de um ano depois.”

Depois voltando a um discurso mais animado, “Mas os seus irmãos continuam vivos e prometeram que se recusariam a receber a morte enquanto o senhor não voltasse”.

Enquanto escutava aquelas palavras um sorriso amargo desenhou-se-lhe nos lábios, ao mesmo tempo que uma lágrima lhe caia pela cara. Sabia que seria assim, que os pais não poderiam ter uma vida suficientemente longa para ainda estarem vivos naquela altura, mas esta confirmação provocou-lhe um aperto no coração, como se a notícia fosse totalmente inesperada. Teria, certamente, mais motivos para sentir o coração apertado nos dias seguintes...

Ela, percebendo o efeito das notícias que tinha acabado de dar, prosseguiu:

“Julgo que agora mesmo devem estar precisamente a reunir-se nesse local onde costumam encontrar-se nas datas que lhe referi.”

“Mas como? Eles já sabem que eu regressei?”

“Sim, várias dezenas de antenas estavam apontadas para o espaço à espera de receber o seu sinal de SOS. Por esta altura a notícia do seu regresso já circula em todos os meios de comunicação. Os peritos tinham previsto que o seu regresso aconteceria entre as sete horas de ontem e as vinte e três de amanhã, por isso havia muita gente na expectativa à escuta do seu sinal.”

“O meu regresso foi previsto?... como?...”

“Alguns anos depois da sua viagem foi feito um esforço para encontrar o seu rasto. Nessa altura havia já algumas teorias sobre o local para onde o sistema de teletransporte o teria levado na altura em que avariou, baseadas nos dados de telemetria encontrados na cápsula que deixou antes da tentativa de regresso.

Tendo como base essas teorias, e procurando tirar partido do facto de a sua nave emitir um sinal de rádio a cada minuto, foram colocadas várias antenas bastante sensíveis em locais do espaço onde se considerou que esses sinais poderiam estar prestes a chegar.”

Claro, como não tinha pensado nisso!? A nave emitia, de facto, um sinal de rádio a cada sessenta segundos. Codificada nesse sinal era enviada a informação sobre a data e a hora a bordo da nave. Uma vez que estes sinais de rádio viajavam à velocidade da luz, algumas antenas bem posicionadas haveriam de, eventualmente, captar algum desses sinais. Bastaria que duas antenas colocadas em dois locais distintos detectassem o sinal para permitir o cálculo do ponto de origem do sinal, usando um processo de triangulação.

”Foi necessário esperar alguns anos, julgo que quatro, para que uma dessas antenas recebesse os primeiros sinais. Depois, com base nessa informação, foi relativamente fácil reposicionar as outras antenas, e em menos de seis meses foi possível determinar com bastante exactidão o local de onde se teletransportou pela última vez. Com base nessa informação foi feita uma estimativa da data da sua chegada.

Desde então tem havido alguns especialistas a contestar estas previsões e a apresentar teorias alternativas, mas, como acabamos de verificar, estavam enganados.”

Teve vontade de lhe perguntar pela mulher e pelas filhas, mas por alguma razão ela tinha evitado falar-lhe nelas, por isso olhou de novo a carta em cima da mesa. Ela, apercebendo-se disso, achou que seria melhor deixá-lo a sós. Sorriu-lhe e disse-lhe “Se precisar de alguma coisa chame-me” antes de se retirar da sala.

(Continua)

6 comentários:

Fenix disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paula Raposo disse...

Sabes o que penso? Não. Mas está fantástico...Nem sei que diga mais.
Pois não digo. O futuro(presente) é aquele que queiras. Eu quero. Beijos.

lélé disse...

O episódio de hoje, com tantas antenas e sinais codificados, deu-me outro nó no cérebro... Se bem entendi, o cosmonauta foi deixando pistas por onde passava, pistas essas, que chegaram à Terra no passado longínquo para os terrestres e muito próximo para ele... Nesse caso, a teoria da Fenix ainda é viável... Seguindo as pistas, a mulher e filhas foram das poucas pessoas, além dele, a utilizar o sistema para viajar no tempo e vão regressar dentro em breve, reencontrar-se e é como se não se tivessem passado mais do que uns dias...
Nesse caso, a chegada delas também deveria ser festejada... A menos que... a missão delas tenha falhado...

mfc disse...

Em toda a boa história há sempre um mistério!
Quando é que se sabe o que a carta diz?
Um abraço.

filha do administrador disse...

mas como é que se demora tanto tempo a ler uma carta?

Si disse...

De episódio em episódio se vai contruindo uma história, com suspense e pormenores técnicos q.b.